Alô, quem fala?

Sim, houve um tempo em que éramos viciados no telefone grudado na parede, e a conta mensal dependia do número ou da distância das chamadas


Antigamente tinha um telefone nessa mesa

 

O mastodonte, preto e pesadão, ficava a um canto da sala, sobre a mesinha com toalha de crochê, idealmente perto de uma cadeira ou um banquinho, ou ao lado do sofá. Esperando pacientemente ao lado, uma agenda ou um caderninho de anotar números e recados, com caneta ou lápis de sentinela ao lado. Porque o fio não ia muito longe: o telefone era fixo, e por ele se pagava uma nota. Instalar uma extensão? Só os ricos.

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Chegando em casa, a primeira pergunta, antes mesmo do Bom-dia ou Cadê as crianças: Alguém me ligou? Antes mesmo da resposta, antes de tirar o casaco ou o sapato, correr para o caderninho onde alguma mensagem deveria estar anotada. Sim, houve um tempo em que éramos viciados no telefone grudado na parede, e a conta mensal dependia do número ou da distância das chamadas. Da. Maria, ligação a cobrar da sua mãe. Disse que é importante...Desliga que é interurbano.

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Objetos e manias que estão sendo relegadas aos labirintos do obsoleto. Pegar o receptor, ouvir o sinal de linha, discar os números na roleta mágica que nos conectava com o resto do mundo, embora o resto do mundo não ficasse muito longe. Um grande problema era o número cheio de 0s e 9s - levava um tempão para levar a roleta até o ganchinho de metal ali do lado, e voltar à posição inicial…e só então discar o próximo algarismo na fila. 

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Dramas maiores, porém, nos atormentavam: Uma chamada perdida, não havia informação de quem havia ligado, nada de Deixe seu recado. O perigo de uma criança tropeçar ou se enforcar no longo fio, que se esticava com infinitas possibilidades. Isso antes de inventarem o fio rastafari. Mãos ocupadas, o receptor acomodado sobre o ombro, a cabeça tombada para que não caísse, dava para fazer muitas coisas enquanto o papo rolava. E muito torcicolo. Tinha os bloqueadores de interurbanos, para evitar que a conta escalasse às alturas. 

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O aparelho custava caro, mas muita gente perdia o telefone por não poder pagar a conta. Havia ainda as chamadas comunitárias, para vizinhos nem sempre muito próximos, Preciso muito falar com Da. Esmerilda, podia chamar na casa ao lado, por favor?  Às vezes tinha que ir longe chamar o chamado, às vezes bastava gritar da janela…Da. Esmerilda desligava a panela de pressão, trocava o chinelo pela alpargata, tirava o avental e trocava a blusa suja, uma olhada no espelho pra ajeitar o cabelo…E o telefone fora do gancho, esperando. Quanta chamada perdida!

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Havia as demandas autoritárias: Estou esperando uma ligação importante, ninguém toca no telefone. E se alguém me ligar? Não atende. Casamentos acabavam por causa dessa apropriação indevida de um bem comum. Dois telefones na casa? Só os muito ricos. Casamentos acabavam quando vinha a conta no fim do mês. Quem é esse Eustáquio pra quem você ligou 54 vezes? Uma hora no telefone com a Brumilda? E os adolescentes gastando horas em colóquios intelectuais: Desliga você... Não, você desliga… Não, você que ligou… Não, quando eu ligo você que desliga. …

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Graham Bell, o inventor do telefone (Alerta: Fake News) foi ao banco pedir financiamento para produzir sua maquininha de falar à distância. Levou um aparelho de amostra e pôs sobre a mesa do banqueiro. Reação do magnata: Tira isso daqui! Quem vai comprar esse bagulho para falar com alguém, se pode ir lá e falar pessoalmente? Moral da história: até uma boa ideia acaba ficando obsoleta.

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Mas quem inventou o telefone? Em 2002, o Congresso dos Estados Unidos reconheceu oficialmente o italiano Antonio Meucci como o verdadeiro inventor do telefone, em 1856. D. Pedro II foi a primeira pessoa a comprar ações da empresa de Graham Bell, a Bell Telephone Company, que depois de muitas alterações, virou a hoje AT&T. Nosso segundo imperador foi uma das primeiras pessoas no mundo a ter um telefone residencial, instalado no Palácio Imperial de Petrópolis. Deve estar lá até hoje.

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