Uma breve história das salas de cinema no Espírito Santo

Como o cinema saiu do Centro de Vitória aos bairros e interiores até se radicar nos Shopping Centers

O primeiro registro de uma exibição cinematográfica no Espírito Santo se dá em 1901, cinco anos após o cinema ser apresentado ao mundo pelos irmãos Lumière na França. O local era o Teatro Melpômene, grande construção com base em madeira onde hoje é a Praça Costa Pereira. Mas antes disso, é possível que houvessem exibições itinerantes em circos e parques de diversões, afirma André Malverdes, professor de Arquivologia da Universidade Federal do Estado (Ufes) e pesquisador da história das salas de cinema no Estado.

Malverdes divide essa história em três períodos. Algumas famílias são marcantes como empreendedores do ramo, tendo construído e dirigido diversas salas, como é o caso das Cerqueira Lima, Abaurre, Rocha e Caretta. Muitos arquivos dessa época incluindo fotografias, cartazes e documentos foram reunidos no blog Salas de Cinema do ES

Foto: Acervo Família Caretta/Memória Capixaba

O primeiro momento vai do pré-cinema, com cinematógrafo, até os anos 50. As primeiras obras exibidas eram em preto e branco, mudas, com duração de poucos minutos e acompanhamento musical feito ao vivo no local de exibição. A história do Melpômene, que realiza as primeiras exibições, dura pouco, pois é fechado após um incêndio parcial em sua estrutura. Mas o cinema havia chegado para ficar. Desde 1907 havia o Cine Éden, que o professor considera o primeiro cinema com sessões regulares, localizado num local que reunia diversas atividades de entretenimento. Desde 1911, o Cine Rio Branco passa a funcionar junto a uma elegante cafeteria da cidade de mesmo nome.

O Cine Éden é demolido nos anos 30 e dá lugar ao Cine Teatro Glória, inaugurado em 1932 com o filme Tenente Sedutor. Ali perto ainda surge o Teatro Carlos Gomes, um substituto do Melpômene, que foi inaugurado em 1927 justamente com a exibição de um filme, O que farias com um milhão?.

O professor classifica a segunda fase como um momento a partir da década de 50 quando as salas de cinema se expandem para os bairros e interior. O Cine Trianon em Jucutuquara, Cine Lourdes no Bairro de Lourdes, Cine Colorado em Campo Grande, Cine Hollywood em Jardim América, Cine Dom Marcos no Centro de Vila Velha, Cine Aterac no Ibes, Cine Mestre Álvaro na Serra, são alguns dos exemplos na Grande Vitória.

No interior, o Cine Castelo, Cine Cacique em Cachoeiro, Cine Floresta, Cine Alhambra e outros em Colatina, Cine Alba em Baixo Guandu, Cine Castro em João Neiva, Cine Cricaré em São Mateus. “Cinema era sinônimo de progresso. Se quisesse ser uma cidade moderna tinha que ter cinema. Era um orgulho ter um cinema. As pessoas iam para o cinema com sua melhor roupa se organizavam e era um preço acessível. Se ganhava pelo número de espectadores, num domingo as sessões lotavam”, diz André Malverdes.

Foto: Acervo Família Castro Dalla

Apesar da grande difusão das salas, o Centro de Vitória continuou sendo importante reduto. O Cine Vitória, conhecido como Vitorinha por seu tamanho considerado pequeno para a época, com 380 lugares, se localiza parede com parede com o Cine Jandaia. O Cine São Luiz, com 585 lugares, é inaugurado com bastante pompa em 1951. É o terceiro do Brasil a ter ar condicionado. O Cine Santa Cecília é inaugurado em 1955 com 1.450 lugares. O Cine Odeon, o Cine Juparanã e o Cine Paz, com seu carpete, paredes e cadeiras vermelhas, também marcaram época no Centro.

“Muitas vezes as pessoas não saíam com um filme em mente para ver. Elas iam à cidade, passeavam pelas lojas e salas, faziam compras e escolhiam o filme que fossem assistir”. Um hábito parecido ao que se pratica nos Shopping Centers de hoje em dia, com a diferença que os cinemas e lojas estavam nas calçadas.

De acordo com André, o Centro de Vitória chegou a ter 13 cinemas em funcionamento ao mesmo tempo. E o Espírito Santo mais de 200.

Na década de 80 começa a decadência. O Centro de Vitória, como acontece nas demais capitais, passa por um processo de esvaziamento, com o deslocamento dos eixos de poder político e econômico para outros bairros, tornando-se espaço mal visto e associado à violência, drogas e prostituição. Com o fim da ditadura, as obras de pornô-chanchada dão lugar a filmes de sexo explícito, modificando o público dos cinemas, que passa de familiar para predominantemente masculino. O Cinerótico, um dos raros cinemas de rua ainda ativos no Estado, é um remanescente dessa época.

A TV começa a exibir filmes com frequência e o videocassete e as locadoras aumentam a oferta domiciliar e, por vezes, chegam às casas ainda antes das obras estrearem nos cinemas de bairro e interior, que demoravam mais para receber os filmes. “Eric Hobsbawn, em A Era dos Extremos, fala que a modernidade isola e afasta as pessoas. Com o telefone não vão à praça conversar, com a TV não vão mais a estádios, com o videocassete vão menos ao cinema”, cita o professor da Ufes.

A crise econômica do governo Sarney também vai afetar o fluxo nos cinemas, já que nesses momentos o lazer costuma ser uma das primeiras coisas a se cortar no orçamento familiar. Nesse processo, a Embrafilme passa por um processo de desmantelamento no governo Sarney e extinção no governo Collor, afetando a política nacional para o setor.

Os cinemas vão fechando, muitos viram igrejas evangélicas, aproveitando da estrutura já favorável com espaço amplo e cadeiras enfileiradas. “A estrutura para igrejas já estava montada. Além disso, é um dos poucos lugares hoje que enchem”, diz André. É o caso do Cine Paz e do Cine Santa Cecília, que hoje alberga uma igreja no subsolo e o restante dos andares que estavam abandonado foram ocupados por famílias sem-teto. Outros locais ficam abandonados, viram agências bancárias ou têm outros destinos.

A paixão e hábito de frequentar o cinema, no entanto, não desaparecem, e depois de um certo vácuo, a terceira fase das salas de cinema no Espírito Santo tem como marco a inauguração do Shopping Vitória em 1992, com três salas e um novo conceito para cinema. No mesmo ano é reinaugurado em novo espaço na Ufes, o Cineclube Universitário, agora com o nome de Metrópolis Cineclube, fruto da luta do movimento cineclubista que orbitava o âmbito universitário, que segue uma cinematografia alternativa.

Mas a predominância desta terceira fase vai ser dos cinemas nos Shopping Centers, novo espaço de sociabilidade e consumo da modernidade, que se expandem baseado na atuação de grandes redes nacionais e internacionais e numa cinematografia baseada na exibição de “blockbusters” estrangeiros, filmes de grande produção e rentabilidade. A cada novo shopping que surgia, novas salas de cinema e novas tecnologias, como o cinema 3D. Em Vitória, atualmente, a oferta é ampliada com a existência de três cinemas alternativos, além da continuidade do Cine Metrópolis, o retorno do Cine Glória e o estabelecimento do Cine Jardins, este com notável êxito em formação de público.

Apesar das mudanças sociais e geográficas, André Malverdes considera que o hábito de ir ao cinema continuar. “Já ouvi muita gente dizer que conheceu o marido ou esposa no cinema, ou que deu o primeiro beijo no cinema. As pessoas vão ao cinema como uma forma de estar junto, há um aspecto social muito predominante. Você não vai ao cinema com quem não gosta, vai com quem gosta. Passeia, faz um lanche ou outras coisas antes e depois”.

Outro aspecto importante que ele considera dessa sociabilidade é o boca a boca, pois mesmo com todo o marketing existente, a recomendação de amigos muitas vezes é decisiva para ir assistir a um determinado filme. O cinema segue, assim, sendo um hábito social.

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1 Comentários
  • Claudio Vereza , quarta, 24 de outubro de 2018

    Somente um acréscimo bairrista: na fase dos cinemas de bairro, o Aribiri teve dois cinemas. O primeiro, o CINE ARIBIRI, num galpão coberto de zinco, na Rua São Luiz. Pertencia a Sr. Valdir e D. Maria Rosa. Com matinês animadas por seriados como O HOMEM FOGUETE, deixou saudades. O segundo, o CINE JOÃO LOPES, foi construído à Estrada Jerônimo Monteiro, onde hoje há uma Mercearia. Parabéns, pela pesquisa

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