O nosso 'laiá laiá'

Conheça o Movimento Samba Novo, que reúne compositores para valorizar o samba autoral capixaba

Fotos: Leonardo Sá

Às 20h o Mercado de São Sebastião, em Jucutuquara, Vitória, abre as portas para o samba na capital capixaba. É quarta-feira e dia de atividade do Movimento Samba Novo (MSN). A partir das 20h30 os sambistas começam a chegar, com seus instrumentos: cavaquinho, banjo, violão, baixo, pandeiro, surdo, tantã, repique e por aí vai. Mas não é uma roda de samba qualquer. É dia de celebrar o compositor.

Completando um ano de criação, o MSN vem reunindo um grupo de sambistas que busca valorizar o repertório autoral capixaba, tocando músicas compostas aqui e agora. Ao adentrar no mercado, edifício histórico datado de 1949, os visitantes recebem um caderno com a letra de todas canções que serão tocadas na noite. Comento que isso me lembra Igreja. "É a igreja do samba", brinca uma amiga frequentadora do projeto.

Há jogo do Flamengo na Copa Libertadores e um singelo lamento - não chega a ser uma preocupação - de que o público seja menor e mesmo que alguns músicos não compareçam. Nesta ocasião o samba corre praticamente em paralelo ao jogo, começam e terminam junto Us.m dos sambistas confessa que de casa a esposa o mantinha atualizado sobre os gols pelo celular, checado entre uma música e outra. Duas paixões nacionais.

Enquanto a bola rola, o início do samba se dá com o Hino do Movimento Samba Novo, gravado por Leley do Cavaco junto com o MSN. O refrão diz:

“É de enredo, é de roda

De terreiro, coisa nossa;

Movimento Samba Novo,

Nosso laiá lalaiá!”

Em seguida, a roda de samba segue, cada compositor interpreta sua canção, ao todo 18 na noite, com música para cerca de duas horas com o mais fresco do samba feito no Espírito Santo. Estamos no Segundo Caderno. O primeiro marcou a estreia do projeto, com 20 composições, apresentadas em julho e agosto do ano passado.



De lá pra cá, os novos sambas agora cantados foram compostos. “Todo samba que é sucesso já foi inédito”, diz Átila Ibilê, um dos fundadores do projeto. As canções são diversas, desde samba ao pagode, letras românticas, sociais, de protesto, religiosas e até os “metasambas” em que o tema é o próprio ritmo e tudo que ele envolve.

O time é de peso, trazendo grandes compositores, instrumentistas e cantores da cena capixaba. Variado, vai desde jovens iniciantes com 18 anos até membros da velha guarda, como Ney do Cavaco, de 71 anos.

O mascote é Artur, filho de Marcelão Compositor. Aos sete anos, chapéu do panamá, canta junto com o pai na roda. “Sou apaixonado pelo samba e nunca vou parar”, diz o pequeno, que também pretende ser compositor, exemplificando na prática para quem ainda não entende quando se diz que samba vem de berço.

Por enquanto, Ana Cris é a única mulher do grupo. “Estou no samba há uns 10 anos, sempre gostei muito de cantar, participar das rodas de samba. Vi a divulgação do movimento nas redes sociais, entrei em contato, apresentei minhas músicas, eles gostaram e estou aqui”. Para o próximo caderno a promessa é de que mais mulheres devem constar.

Ricardo Sambista explica que o movimento é aberto a novos compositores que queiram fazer parte. Para isso, é preciso enviar suas composições, que passam por uma avaliação dos atuais membros antes de ingressar no grupo.

O MSN vai muito além das apresentações públicas e gratuitas no Mercado de São Sebastião, que na verdade são a culminação do projeto, quando o público tem acesso às novas composições. Antes os sambistas ensaiam, fazem suas “resenhas”, em que tocam, conversam, se entrosam.

“Fazer parte dessa corrente é enriquecedor em todos os sentidos. Acabamos entrando em contato com diferentes formas de compor e absorvendo a ideia um do outro. Isso é um ponto muito positivo. Quando idealizamos o projeto, falamos que tinha que ser de verdade entre a gente, para o público sentir a energia, a verdade, não ser uma coisa fake ou pasteurizada”, considera Átila Ibilê. Para ele, os momentos os que mais marcantes e instigantes são justamente no processo de aprender o samba do colega.

Depois que o caderno está pronto, os ensaios feitos, aí sim o samba é apresentado abertamente, de forma quinzenal durante dois meses, ou seja, quatro apresentações abertas de cada caderno. Depois repete-se o ciclo com novas composições e cadernos.

Na quarta-feira passada, foi realizada a última apresentação do Segundo Caderno, e na próxima semana começam os preparativos para o caderno seguinte. Para assistir às próximas apresentações, é bom ficar atento às redes sociais do MSN como Facebook e Instagram

Mais do que uma balada

Átila considera que o samba na Grande Vitória está mais vinculado a um dia específico e um local em que vai proporcionar uma boa balada do que propriamente ao conteúdo apresentado. “Realmente o conteúdo autoral ainda é distante do público do samba capixaba. O público precisa se aproximar disso e a gente também precisa aperfeiçoar nosso marketing, nossa chegada até esse público. Esse é o desafio, existem esses dois fatores que precisam ser superados”, acredita.

Ele acredita que as rodas de samba também têm o compromisso de fazer o povo cantar, o que faz com que seja natural interpretação de clássicos e sucessos já consagrados. Daí a estratégia do MSN de uma roda exclusivamente autoral, no intuito de formar público para esse estilo.

Marcelão Compositor, com quase 30 composições, considera uma exceção o fato de ter dois de seus sambas muito tocados nas rodas, Açucena e Outro Ninho. “O samba do Espírito Santo em geral não tem muito a cultura de cantar os sambas capixabas nas rodas. Mas assim como estados como Rio de Janeiro e São Paulo, também se faz samba de primeira qualidade aqui”, diz.

Curiosamente, o "start" do Movimento Samba Novo começou no Rio de Janeiro, quando Renilson Rodrigues encontrou casualmente com Átila Ibilê, ambos sambistas e compositores capixabas. Quer dizer, nem tão casualmente, pois havia muito o que os unia e os levava a estar ali num evento de samba autoral no boêmio bairro da Lapa, o “Aos Novos Compositores”, cujo formato serviu de base para criar o MSN. "Falei pra ele: 'vamos fazer uma parada assim em Vitória?' Ele falou que sim. No momento achei que era só pilha", conta Renilson.

Mas era real. Foram jogando a ideia para diversos sambistas compositores capixabas, que também compraram a proposta. Na verdade, muitos artistas já buscavam esse espaço de alguma maneira, faltava só dar um empurrãozinho. Ou numa metáfora melhor, faltava abraçar um projeto. E surgiu o MSN, com o samba feito aqui e agora. Que termina cada edição tocando novamente seu hino que abriu a apresentação:

“E vem da minha voz

Sai da sua voz

Serve pra cantar

E desatar os nós

É nossa oração, nosso coração,

Cante com alegria e emoção”

O caderno que traz as letras que serão cantadas termina com: “Obrigado pela presença. Volte sempre e traga uma amigo”. Assim cresce o Movimento Samba Novo.

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