Moradores de Regência constroem mapa afetivo da Foz do Rio Doce

Projeto registra memórias, histórias, tradições e cultura da região afetada pelo crime da Samarco/Vale-BHP

Tecer uma rede de conexão entre territórios, saberes, afetos, tradição e identidades na foz do Rio Doce, em Linhares, norte do Estado. Essa é a proposta do projeto "Mapeamento Afetivamente a Foz do Rio Doce", lançado no dia 28 de fevereiro em Regência e recentemente disponibilizado pela internet.

Famílias de pescadores, ribeirinhos, agricultores, indígenas e surfistas apresentam seus relatos sobre a relação de suas comunidades com o rio nas comunidades de Regência, Areal e Entre Rios, todas localizadas na proximidade da foz em Linhares. A realização do projeto, que contou com apoio do Fundo Estadual de Cultura (Funcultura), foi feita por moradores da região, sensibilizados após o crime socioambiental ocorrido no Rio Doce.

"As tramas desta cartografia começaram a ser tecidas em novembro de 2015 e da nossa afetação enquanto pesquisadores e moradores da Vila de Regência. É nesta época que os efeitos do rompimento da barragem de rejeitos de mineração das empresas Samarco, Vale e BHP Billinton, despejados no rio Doce, atravessam os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, desaguando na sua foz, no distrito de Regência Augusta, e vai se espalhando pelo oceano", diz a apresentação do projeto, realizado por Flávia Amboss e João Paulo Lyrio Izoton.

No processo de pesquisa de campo, os envolvidos puderam perceber mais sobre o impacto do crime para as comunidades e para o meio ambiente e ouvir diversas famílias que são guardiãs da cultura e das tradições da região. "É neste contexto de sofrimento que vivenciamos e compartilhamos ao longo das expedições anteriores que fomos tecendo a linha mestra desta cartografia afetiva, nos possibilitando um reencontro imersivo com os territórios da foz do Rio Doce a partir dos afetos e práticas ali estabelecidos desde tempos muito anteriores à chegada da lama da Samarco", contam os pesquisadores na introdução.

O projeto foi lançado numa versão multimídia no site cartografiadafoz.com e também numa versão em formato de cartilha eletrônica. Os conteúdos são divididos em quatro eixos: Rio Lagos e Brejos; Boca do Rio Mar e Praia; Terra, Mata, Caminhos e Lugares; e Tradições, Saberes, Fazeres e Festas.

No primeiro eixo, um pouco sobre o ambiente riquíssimo do ecossistema aquático existente na região, as canoas e armadilhas usadas para pescar, as memórias sobre a fartura de peixe, dos momentos de lazer nas águas, das lagoas e brejos que secaram pela imprudência do ser humano, a forma de preparar o pescado.

Em seguida, o projeto apresenta relatos sobre os sabores dos peixes do mar e também das tartarugas que faziam parte da alimentação local, o início da utilização das redes de pesca, e a chegada dos surfistas que passaram a frequentar Regência atraídos pelas boas ondas.

Na terceira parte do mapeamento, um pouco sobre agricultura, as roças e quintas, as casas de farinha e mandioca e seus diversos usos, outros produtos como copaíba, taboa, araruta, a criação e caça de animais, a mata e seus caminhos e também a chegada da Petrobras e seus impactos na região e as restrições do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em relação aos cultivos.

Já o último eixo aborda a forma antiga de fazer as casas de barro, os ajuntamentos (mutirões), medicina tradicional, benzimentos, partos, as celebrações do congo, o carnaval no clube Valete de Ouro e depois com o Fubica, e as festas do calendário religioso.

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