'Minha casa é redonda e o nome dela é Planeta Terra'

Nascido na Serra, Vitor Martins Lopes viaja levando musicoterapia e cura vibracional com instrumento raro

O boné protege do sol e tampa parte dos dreadlocks. Vitor Martins Lopes caminha pela beira da estrada com um mochilão nas costas e uma bolsa redonda na frente, na qual leva uma handpan, instrumento com formato de disco voador e som alienígena. Feito caramujo, essa é sua casa. Está pronto para ir para qualquer lugar.

Mochileiro, músico, ecologista, vegano, ativista. São várias facetas que não se contradizem, e sim se complementam na vida do jovem de 29 anos nascido em José de Anchieta II, na Serra, região conhecida como "sovaco da cobra", que infelizmente figura nos noticiários apenas na parte policial.

O bairro está quase ao pé do Mestre Álvaro, o monte guardião da Serra e uma das mais altas formações rochosas do litoral brasileiro. De criança lembra de seu pai o levando no colo pelas trilhas, que depois percorreu inúmeras vezes por lazer, no trabalho de ecoturismo e também no cuidado ambiental, realizando caminhadas com até 200 pessoas para limpeza das trilhas. "Chegamos a retirar um caminhão cheio de lixo de lá", conta lembrando dos mais cerca de três anos que atuou junto ao Grupo de Proteção Ambiental Mestre Álvaro (GPAMA), quando chegou a ser incentivado a tentar uma candidatura a vereador de seu município.

A vontade de caminhar e conhecer outros lugares sempre existiu desde pequeno. Depois de perder alguns passeios espontâneos com seus amigos de bairro por não estar pronto na hora em que os amigos chamavam, passou a andar sempre com uma mochila já pronta nas costas, com uma muda de roupas, higiene pessoal e algo de comer. Certa vez chamou o primo para ir a Manguinhos de bicicleta pegar uma praia. Ao invés de voltar como previsto, decidiram subir um pouco mais. Terminaram chegando em São Mateus pedalando.

Com o tempo, o jovem cresceu, as viagens se alongaram e a mochila também precisou ser maior. Hoje leva barraca, isolante térmico, rede, pequenas panelas, fogareiro, tudo em formatos pequenos e/ou dobráveis, adaptados para a vida mochileira.

Os instrumentos foram se somando aos pertences da mochila, com preferência pelos mais leves como pandeiro, triângulo, bongô, um mini cajón, e mais recentemente o handpan, seu principal instrumento de trabalho, que pesa pouco mais de 3 kg. Ele começou a tocar bateria com 11 anos de idade numa igreja evangélica. "Eu achava massa, meu primo já tocava. Comecei a tocar bateria, depois a dar aula e tocar na noite, viver de música. Como não tinha como carregar a bateria na mochila, fui mais para o lado da percussão. A música ajuda a me sustentar na estrada", conta.

O talento com a música abriu as portas para a experiência de viver uma vida alternativa, itinerante, andarilha. "Depois de muito tempo na estrada é que descobri esse termo 'mochileiro'. Quando comecei não tinha muito contato com internet". As viagens então dependiam de muito dedão estendido na estrada para pegar carona, barraca armada em posto de gasolina, contato em albergues governamentais ou de igrejas, caronas em ônibus que vão a encontros de movimentos sociais ou até em carros ou ônibus das secretarias de saúde que levavam doentes a hospitais.

Nos últimos anos ele cita algumas facilidades da internet como o Couchsurfing, que permite ficar de graça na casa de pessoas solidárias, aplicativos de carona via celular e o ID Jovem, que reserva passagens interestaduais gratuitas para jovens.

Nas indas e vindas, passou por diversas cidades. Não costuma planejar muito, segue a filosofia do "deixa a vida me levar". Sua passagem por um local pode durar um dia ou meses. Numa viagem conheceu a cantora de reggae Marina Peralta, com quem tocou por um tempo, passando a morar Mato Grosso do Sul, onde depois também tocou com a dupla de sertanejo raiz Alex e Yvan. Nessa época chegou a comprar uma Kombi usada. "Comprei sem saber dirigir. Vi uma oportunidade, estava barato. Comprei e deixei na casa de uma amigo por lá. Está guardadinha", contou. Ele pretende reformar usá-la como casa e transporte, guardar seus instrumentos e rodar mais por aí. Visão de futuro.

Com a Kombi comprada e guardada, seguiu na estrada por outros meios. Passou por Mato Grosso, Rondônia, Acre até chegar a Bolívia, Peru, onde realizou aulas e oficinas sobre percussão e música brasileira em espaços culturais e sociais. Também já viajou pelo Chile, Argentina, Colômbia, Paraguai. Trabalho e férias não têm fronteiras tão claras. Belas paisagens naturais, cidades grandes, algum lugar para tocar, seja por diversão, serviço social ou dinheiro. Ou tudo isso junto.

Do estilo de vida viajante, no qual visitou e participou de encontros com comunidades e pessoas alternativas, entrou em contato com as ideias do veganismo. Conta que não foi nada difícil deixar a carne e derivados de fora de sua dieta cotidiana. "Já estava querendo ser vegano, aí do nada, de um dia para outro, pensei: 'a partir de amanhã serei vegano'. Acordei no outro dia e já era, troquei a alimentação e também os instrumentos de couro animal por couro sintético. O que tira o som é a mão do percussionista e não o material do instrumento", relata.

Se é difícil ser vegano numa vida viajante? Que nada. No que chama de veganismo popular, a xepa da feira, compras na Centrais de Abastecimento do Espírito Santo (Ceasa), aproveitamento de alimentos amassados que ninguém quer, tudo ajuda na alimentação natural e barata.

Dinheiro, garante, não é o principal elemento necessário para viajar. Aponta três elementos fundamentais: ter bons amigos, contatos e informação. "Hoje há muita informação na internet Tem que procurar saber seus direitos, ver o que pode ter acesso, construir boa rede de contatos com amigos. Dinheiro é mais para luxo, comprar algo extra", considera.

Mas sempre que dá, claro, vai juntando algum. Foi num verão tocando na Bahia que conseguiu grana para comprar há dois anos seu primeiro handpan, usado. Vitor conta que o instrumento que é menina de seus olhos é considerado o último criado pela humanidade, pois traz uma sonoridade nova e foi inventado já no século XXI. O viu pela primeira vez num encontro de comunidades alternativas na Serra do Caparaó. "Fiquei doido, queria ter um, fui pesquisar. A sonoridade é única, não tem como explicar". Nesse momento havia pouquíssima produção, concentrada na Europa, e o preço poderia chegar a R$ 10 mil, fora o longo tempo e espera. Depois de conseguir seu primeiro handpan usado, recentemente o trocou por um novíssimo, produzido no Brasil pela Pampeano Discos Sonoros.

O instrumento deu base para iniciar um novo projeto, chamado Natural Music. Nele consegue aliar vários desses elementos que compõem seu estilo de vida: viagem, música, veganismo, ecologia, ativismo e trabalho social.

Com seu hadpan vem trabalhando e tocando em espaços de yoga, meditação, restaurantes veganos e vegetarianos, sem deixar de lado o trabalho social voluntário em entidades sociais como hospitais, lares de idosos e Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes). Além de cobrar contribuição nas aulas e shows em locais comerciais, também vende o CD que gravou em Cuiabá com um amigo, com quatro faixas e duas horas de som com instrumentos como handpan, sino tibetano, tigelas de cristal, berimbau, caxixi, tambor oceano e outros.

Trabalha com musicoterapia e o que chama de cura vibracional. A vivência incluiu ouvir o instrumento, tocá-lo, e também senti-lo. "Guio a meditação, coloco o instrumento sobre o corpo de cada pessoa e toco. O instrumento vibra dentro dela. Cada um tem uma sensação diferente", explica.

O projeto que caminha junto com o músico encontra-se em atividade atualmente no Espírito Santo. Vitor resolveu estacionar de novo na Serra por três meses enquanto trata de agilizar os trâmites para tirar carteira de motorista para finalmente poder dirigir sua Kombi deixada no Centro-Oeste do país. Mas diante da conjuntura política desfavorável no Brasil, especialmente para um jovem negro que vive pelas estradas, também pensa em voos mais longos.

Uma de suas metas é poder levar o projeto para a Europa e atuar especialmente junto aos refugiados de guerras e outros conflitos que chegam ao continente. "Estou pesquisando projetos e ONGs que trabalham com acolhimento, gostaria de trabalhar com refugiados, ter experiência de vida, vivência, conhecer a realidade e depois cruzar o continente e ir conhecer a África e Ásia".

Se trocaria esse estilo de vida por um bom emprego? "Eu já tenho um bom emprego. Meu trabalho é de boa, faço o que gosto, vivo de música, curto meu estilo de vida. Não tenho do que reclamar, nunca passei dificuldade, vivo tranquilo, não tenho rotina de ter que acordar e bater cartão. Vivo mais livre, em qualquer lugar, num tem essa de território mais não", afirma.

Até confessa ser especial estar na terra em que nasceu, rever família e amigos de infância, fazer um som aqui. Mas algo similar também é capaz de sentir por outros lugares onde já passou. "Minha casa é redonda e o nome dela é Planeta Terra. Onde eu estiver estou em casa, faço amizades, o conceito de família é todo mundo".

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