Cultura do Espírito Santo vive noite de brilho na Bahia

Silva, Elisa Lucinda, Fabrício Noronha e Carol Ruas debateram cultura capixaba na Casa Ninja, em Salvador

Mais de 200 vão se aglomerando em volta da calçada da Casa Ninja, espaço de verão do grupo Mídia Ninja inaugurado em Salvador, Bahia, no início de 2019, à beira da Praia do Porto da Barra. Em plena noite de segunda-feira, seria isso normal se houvesse uma batucada ou outra manifestação cultural baiana sendo apresentada naquela área tão turística. Mas as atenções estão voltadas para um debate em torno do Espírito Santo. Quatro convidados capixabas participam do projeto Sofá na Rua, com bate-papo ao ar livre. 


Foto: Casa Ninja Bahia

"Essa é uma mesa histórica. Nunca estive numa mesa com com quatro capixabas fora do Espírito Santo", diz a poetisa e atriz capixaba Elisa Lucinda. Morando há quase 33 anos no Rio de Janeiro, ela saiu do Espírito Santo quando os outros convidados eram ainda bebês ou nem haviam nascido. Fazem companhia o cantor Silva, o secretário de Cultura do Espírito Santo, Fabrício Noronha, e a subsecretária de Cultura Carol Ruas.

"A gente aprende isso com a Bahia", prossegue Elisa. "Porque a Bahia junta todo mundo, Caetano Veloso com Carla Perez, embola tudo, tudo é Bahia. Isso é um viver democrático muito poderoso", diz arrancando risos da plateia.

O tímido Silva é o mais paparicado pelo público jovem presente, mas Elisa, como é de praxe, rouba a cena com seu carisma e espontaneidade. A diferenças não atrapalham. Muito pelo contrário, o papo flui.

Elisa conta que saiu do Espírito Santo fugindo de um conservadorismo nos costumes e em busca do sonho de ser atriz reconhecida. "Eu chegava no Rio e era tudo que eu era, era absorvida muito facilmente". Conta que quando se mudou para lá pensou: "Vitória não tem nada para me ensinar e eu não tenho nada para levar para o Rio de Janeiro", apesar de ter estudado Comunicação Social e Teatro em sua terra natal. "Pensava que o Rio de Janeiro que ia me dar tudo". Na capital fluminense, entrando nos movimentos dos recitais de poesia, seu trabalho chamava atenção e juntava pessoas.

"As pessoas diziam ela é muito modeeeerna", diz com tom debochado, esticando a palavra final. "E eu tinha vindo de Vitória! Isso é muito doido...", ri a artista. "Talvez eu nem soubesse minha riqueza. Aquela era minha riqueza que trazia da minha terra. O que eu acho ruim é ficar dizendo que sou do Espírito Santo, sou capixaba, chatinha, sem sair do umbigo. Porque o mundo é todo misturado e eu sou comprometida com as coisas que estão acontecendo".

Já Silva vive o oposto de Elisa em sua carreira. Faz sucesso em todo Brasil e continua vivendo em Vitória, sua cidade natal. "Eu não quis sair de Vitória porque eu acho que tem uma coisa, Daniela [Mercury] falou para mim ontem, sobre se abastecer com ideias, pessoas que te inspiram, que têm ideias boas. Ela me disse: 'Se Vitória é um lugar que tem ideias boas, pessoas que te inspiram, não sai de lá, lá é seu lugar'.”

E mais, ele trabalha com uma equipe toda da cidade. "Descobri uma equipe incrível em Vitória. Todo mundo que trabalha comigo é da minha cidade: iluminador, som, roadie. Não mudei ninguém, são as mesmas pessoas do começo, pessoas muito boas que foram melhorando. Pessoas que sabiam que estavam começando como eu, mas que tinham uma ambição de crescer, de aprender e de melhorar naquilo", relata o cantor.

Sua história é mais um exemplo das mudanças da indústria cultural nos últimos anos. Começou a postar suas músicas gravadas em casa, na internet, até que foi descoberto por um produtor do Rio de Janeiro que o convidou para gravar em seu estúdio. Saiu de carro rumo às terras cariocas com seu irmão levando instrumentos e fazia as gravações gratuitamente mas de madrugada, quando o estúdio estava vazio. Conquistou a crítica e o público, que viu seu primeiro show profissional ali mesmo em Salvador, onde era totalmente desconhecido.


Foto: Vitor Taveira

Mas claro, o encontro não era só para falar de passados e capixabices. O momento político do Brasil, as políticas públicas para a cultura e o racismo estiveram entre os temas que apareceram no bate-papo, que teve perguntas também do público.

"As artes não são estáticas, tal qual a vida. E eu sou uma artista comprometida com meu tempo. Não acredito em nada que não seja político. Estar aqui é um ato político. Agora que o bicho está pegando, então, qualquer reunião dessa ordem é política. E poderosa", disse sintetizando o espírito da reunião.

Silva também resumiu outro aspecto em comum do encontro na Casa Ninja. "Eu sou muito aberto com música, gosto muito de música. Sou curioso, troco muito, não tenho isso de não é minha galera, não é meu grupo musical, não vou andar aqui. Me esforço para não me fechar numa ideia só, porque isso empobrece nossa cabeça", disse lembrando que gravou com artistas desde Marisa Monte até Anitta.

Fabrício Noronha, há pouco mais de um mês à frente da Secult, falou dos princípios que norteiam sua atuação. "Do ponto de vista mais conceitual, a gente chega com uma perspectiva de alinhamento com o governador Renato Casagrande, uma visão de cultura mais transversal. Temos conversado sistematicamente com outras secretarias, parceiros, institutos, realizando agendas externas", conta falando da visita a espaços culturais em Salvador e aos secretários de Cultura e de Educação da Bahia.

"Um aspecto da cultura que estamos trazendo é a cultura enquanto elemento de conexão. Tanto no aspecto da economia criativa, com trocas simbólicas e monetárias, como no pertencimento, no entendimento de ser capixaba, na conexão com os territórios do interior e toda sua diversidade cultural incrível. Estamos desenhando as políticas com esse viés, diagnosticando, e logo começaremos a colocar em prática".

Carol Ruas lembrou que pese os tempos adversos para o progressismo a nível nacional, os novos gestores públicos da cultura capixaba trazem os aprendizados e conceitos das gestões de Gilberto Gil e Juca de Oliveira à frente do Ministério da Cultura. "Eles mudaram completamente a forma de fazer política cultural, colocaram a cultura na ordem do dia no Brasil. Somos filhos desse processo. Temos agentes culturais, gestores e artistas espalhados pelo Brasil que aprenderam a lição e têm a obrigação de levar esse legado para onde estivermos", afirmou a subsecretária diante das incertezas que se anunciam com o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

"Não temos um problema com a cultura a nível nacional. Eles é que têm um problema com a gente. Estamos agora nesse lugar de cobrar e reivindicar, a sociedade civil mais do que nunca é essencial para articular esse processo. Temos o privilégio de estar nesse lugar de gestores públicos e a gente conta com isso, conta com vocês",

O encontro terminou em grande estilo. Depois de declamar dois de seus poemas, Elisa Lucinda chamou Silva para um dueto e convidou o público a cantar junto um dos mais ilustres artistas capixabas, Sérgio Sampaio. "Eu quero é botar meu bloco na rua...", entoaram.

A noite não terminava ali na Casa Ninja, que durante a madrugada ainda realizou uma oficina gratuita de Astrofotografia e Astronomia, mas aí as estrelas já eram outras e muito mais distantes destas que ali brilharam vindas do Espírito Santo.O bate-papo com os quatro capixabas serviu de abertura para uma semana intensa do projeto Sofá na Rua, que na terça-feira recebe a candidata à vice-presidência nas últimas eleições Manuela D' Ávila (PCdoB) e o líder do Movimentos dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) Guilherme Boulos, que foi candidato à presidência pelo Psol.

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