Criadores de abelhas sem ferrão em Aracruz pedem não ao fumacê

Gandini (PPS) pediu envio do inseticida ao município, mesmo sendo autor de PL que proíbe neonicotinóides

Ineficiente contra os mosquitos transmissores de doenças e fatal para insetos inofensivos, principalmente as abelhas, o fumacê não deve ser trazido para a orla de Aracruz, advertem os meliponicultores – criadores de abelhas nativas e sem ferrão - do município.

A exemplo de colegas de outros municípios capixabas, outros estados brasileiros e outros países, os Meliponicultores de Aracruz estão se mobilizando para esclarecer o poder público sobre o engodo da medida.

O pedido foi feito pelo deputado estadual Fabrício Gadini (PPS) na última semana, para que o governador Renato Casagrande disponibilize o “serviço de Ultra Baixo Volume (UBV) acoplado, conhecido popularmente como fumacê, pela Vigilância Ambiental da Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) para trabalhar no combate aos vetores transmissores das arboviroses (dengue, Chikungunya e Zika), com atenção especial na orla do município de Aracruz /ES”.

Contraditoriamente, Gandini é autor do Projeto de Lei (PL) nº 237/2019, que proíbe o uso de inseticidas à base de neonicotinóides, nos serviços de carro fumacê feitos nos centros urbanos de todo o Estado. Mas no ofício que encaminhou ao Executivo por meio do presidente da Ales, Erick Musso (PRB), não há qualquer menção ao impedimento do uso de neonicotinóides.

“É uma contradição”, observa Guilherme Plotecya, membro da Associação de Meliponicultores do Espírito Santo (AMES-ES). “O fumacê mata todos os insetos, incluindo borboletas, mariposas e aranhas, que comem mosquitos. Outros animais, como a lagartixa, que também come mosquitos, também irão sofrer desequilíbrio”, adverte.

O pleito da AME-ES é pelo não uso do fumacê no município. Mas caso não seja possível, visto que a aproximação do período eleitoral torna o fumacê um importante cabo eleitoral para futuros candidatos às câmaras e prefeituras municipais, o pedido é que a aplicação seja feita no período noturno, quando as abelhas estão dormindo dentro das caixas e que seja feito um cadastro das pessoas que queiram receber avisos sobre os horários e datas das aplicações, a exemplo do que já acontece em Vitória. “Assim o criador consegue fechar os enxames com antecedência, protegendo as abelhas”, explica.

O fumacê, principalmente com neonicotinóides, contamina as flores onde as abelhas captam pólen e néctar. Ao trazer esse alimento contaminado para as caixas, elas dizimam todo o enxame. Por isso é preciso saber os horários de aplicação para mantê-las fechadas até dois dias depois, até que o inseticida evapore das plantas. E caso recebam diretamente o veneno durante o voo ou coleta de alimento, elas morrem quase que imediatamente.

A grande questão, no entanto, salienta Guilherme, é que o fumacê não é eficiente contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, Chikungunya e Zika. Quem pica o ser humano é a fêmea, que vive em cantos mais escuros das casas, onde o fumacê não alcança. O macho, que é atingido pelo veneno, não se alimenta de sangue.

Para exterminar as fêmeas, há outros métodos, como as iscas já em uso em Vila Velha, e outras, testadas com sucesso em outros estados, como o GrudAedes e a Barrepel, utilizadas em Campos dos Goytacazes/RJ.

“Temos boas instituições como Ufes e Ifes [Universidade e Instituto Federais do Espírito Santo], para apoiar estudos e desenvolver soluções eficientes”, sugere o meliponicultor.

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