Tragédia brasileira

A morte da menina Ágatha, com um tiro de fuzil, faz parte de uma semana de tragédias que ampliam a cenário caótico no Brasil

“O STF (Supremo Tribunal Federal) sai e a Lava Jato fica!...você fará parte dá história de Liberdade, Prosperidade e Soberania de Nosso Brasil!” A mensagem que chega pela internet nesta sexta-feira (27) é um trágico retrato da sociedade brasileira, mergulhada em incertezas e pavor gerados a partir do golpe de 2016, engendrado por políticos envolvidos em corrupção e com o apoio de castas há séculos instaladas em todas as instâncias de poder, destaque para os oligopólios midiáticos.  

Assim foi a última semana, desde sexta-feira (20), quando a menina Ágatha Vitória Sales Félix, de apenas oito anos, foi assassinada no Rio de Janeiro por um tiro de fuzil, até o muito atrasado início do mais do que necessário enquadramento da Lava-Jato pelo STF, nesta sexta-feira (27), fruto de pressão popular e de setores da mídia, apesar dos movimentos de alguns ministros visando reduzir o alcance das medidas que serão adotadas. 

No foco, complicar o processo de libertação do ex-presidente Lula, condenado sem provas e mantido como preso político nas dependências da Polícia Federal em Curitiba, como demonstram alguns ministros do STF e procuradores da Lava Jato, Deltan Dellagnol à frente.  

Os mensageiros do caos, que pedem o fim do STF, dormem na ignorância que os leva a desconhecer quaisquer resquícios de um Estado Democrático de Direito e a aceitarem o conceito que anuncia o doce como amargo e o amargo como doce, recebendo em si mesmo a dolorosa paga por tão grande engano. Mesmo assim, não se importam e, como uma manada de gado, são tocados por um falso patriotismo, que se revela destruidor e cruel. 

A semana se encerra com o registro da operação de busca e apreensão, realizada em Brasília na sexta-feira (27), no escritório e na residência do ex-procurador da República, Rodrigo Janot, a fim de conter seus instintos homicidas, conforme ele mesmo declarou, apontando a potencial vítima, o ministro do STF Gilmar Mendes. 

Tal e qual um apequenado Robespierre da Revolução Francesa, guilhotinado em 1794, Janot passa pela mesma vergonha que ele impôs a muitos em ações desse tipo coordenadas quando ocupava o cargo de procurador-geral. Autor da proposta que anulou a posse do ex-presidente Lula na Casa Civil da Presidência da República, acolhendo o pedido do PSDB de Aécio Neves, envolvido até o pescoço em casos de corrupção, e do PPS (hoje Cidadania) de Roberto Freire, poderia ter evitado o golpe, não o fez. 

A semana traz outros personagens nesse contexto kafkiano, surreal, e, ao mesmo tempo, de escrachada chanchada, onde não pode faltar o capitão Jair, que nos encheu de vergonha com o bizarro discurso perante chefes de Estado de todo o mundo na abertura da conferência da Organização das Nações Unidas (ONU). Foi o ápice da zona sombria na qual o Brasil se move com mais de 13 milhões de desempregados, sem verbas para a educação e a pesquisa, com a soberania ameaçada, uma piada mundial.  

Há muita coisa ainda merecedora de comentários, sendo a mais assustadora o chamamento para destruir instituições que, apesar dos equívocos e falhas, devem ser preservadas, a fim de que o caos não se instale de vez, como ocorreu recentemente em operações policiais que destruíram empresas e reputações, geraram desemprego e miséria, em nome de Deus e do combate à corrupção. 

Hoje, se sabe que a história não é bem assim, o objetivo foi outro, nunca combater a corrupção. Mais assustador é saber que o chamamento para um período de liberdade, prosperidade e soberania do país vem daqueles que carregam a marca do autoritarismo, do ódio e preconceito, estimulados pelo bolsonarismo, ou não conseguem distinguir alhos de bugalhos e participam de manifestações na porta do STF, como na última quarta-feira (24), em Brasília, gritando “Abaixo esse FGTS”. Não sabem nada.   
 

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