Tempos de pós-verdade

Na tentativa de desmentir a crise no ''blocão'', o presidente da Assembleia demonstra uma postura equivocada

“A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, subtítulo do livro Pós-Verdade, do jornalista britânico Matthew D’Ancona (Faro Editorial, 2018), se encaixa perfeitamente no contexto político brasileiro, notadamente a partir de 2016. 

A disseminação mais intensa de fatos deturpados ou inexistentes, observada desde 2016, alimentou uma onda de ódio contra a população pobre, as chamadas minorias, e partidos e lideranças políticas progressistas. 

Na base desse desvio, transformado em ações normais e aceitáveis, poderosos sistemas montados em campanhas eleitorais e, como uma decorrência natural, a classe política. 

Um quadro que pode ser observado tanto na corte de Brasília como nos estados, incluindo o Espírito Santo. Nesta semana, ocorreram por aqui claros exemplos de deturpação de fatos, gravados em câmaras de TV e sistema de rádio, depois desmentidos por seus protagonistas principais. 

Nessa quarta-feira (13), o presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (PRB), declarou com toda a ênfase possível que “tentarão destruir esta Casa, mas não conseguirão”. 

Fazia uma referência ao registro jornalístico da sessão da véspera, quando parte dos parlamentares da Casa quebraram o “blocão” liderado pelo deputado Marcelo Santos (PDT), cotado para ocupar a vaga de conselheiro no Tribunal de Contas (TCE) e motivo pelo qual houve os protestos dos deputados, com o dedo do Palácio Anchieta, que tem outro candidato ao cargo. 

A contestação do presidente encontrou caixa de ressonância no líder do governo na Assembleia, deputado Enivaldo dos Anjos (PDT), exemplificada na expressão de que a imprensa fez uma interpretação “errônea”, e na alteração do comportamento dele mesmo e do restante do plenário do Legislativo. Uma mudança de água para vinho, sem questionamentos.

Ressalte-se, porém, que é verdadeiro o fato divulgado no noticiário e redes sociais, dando conta da dissolução do grupo coordenado por Marcelo Santos, ocorrido na véspera. Sem esquecer as falas com tom de voz bastante alterado do deputado José Esmeraldo (MDB), alinhado ao Palácio Anchieta, e o primeiro a contestar a liderança de Marcelo Santos. 

A atitude de Erick Musso e de boa parte do plenário da Assembleia Legislativa remete às teorias conspiratórias, a fim de gerar um trincado no nível de confiança em setores essenciais à democracia e à sociedade. O alvo é, sempre, manter a população como que hipnotizada, omissa perante acontecimentos que tocam diretamente o seu dia a dia. 

Na mesma semana, outro fruto desse tempo de pós-verdade ocorreu. O deputado Vandinho Leite (PSDB) apresentou projeto de lei proibindo a “doutrinação” em salas de aulas por professores que defendem a chamada ideologia de gênero, marxismo e coisas desse tipo. 

Segue na esteira dos equívocos registrados na última campanha presidencial que elegeu Jair Bolsonaro, com forte apoio de sistemas religiosos, que desenvolveram luta feroz contra um inexistente “kit gay”, a doutrinação comunista nas escolas, entre outras fake news. Desse modo, contribuíram para demonizar partidos e lideranças mais progressistas, enquanto promoviam o retrocesso de conquistas e direitos socais.  

Prenúncio de um clima que o País já viveu e que, até os dias atuais, faz sombra à democracia e à liberdade de expressão. 

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