De golpes e líderes

A libertação de Lula representa uma reação à onda fascista não só no Brasil, mas em toda a América Latina, agravada com o golpe na Bolívia

A semana começa com mais um golpe de Estado na América Latina, desta vez na Bolívia, onde foi deposto o presidente Evo Morales. A ação acontece dois dias depois da libertação do preso político Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Lula, levado à prisão como parte do golpe que depôs a presidente Dilma Rousseff, em 2016, e se insere nos movimentos do neoliberalismo cujo objetivo é manter uma política colonialista nos países sul-americanos.  

Na sexta-feira passada (8), me perguntei como poderia esconder os olhos marejados e evitar que as lembranças aflorassem à mente ao ouvir um homem de 74 anos, barba branca e cabelos rareando, afirmar que está livre para ajudar a libertar o Brasil dessa loucura? A aparência mudou, passados 38 anos de quando o vi pela primeira vez, mas o tom e a garra permanecem. Lula está de volta, os 580 dias como preso político entram para a história.  

Ele fala como em 1981, motivando frases como “o cara é bom de discurso”, talvez a mais ouvida naquele ano, eu me lembro. Terminara há pouco a conferência de sindicalistas de todo o país, em Belo Horizonte, preparatória da Conferência das Classes Trabalhadora (Conclat), que seria realizada em Praia Grande, São Paulo alguns meses depois.

Na calçada de um bar transformado em cenário de articulações envolvendo várias correntes ideológicas da esquerda brasileira, os olhares estavam voltados para o barbudo que defendia a união da classe trabalhadora e da esquerda, enquanto sorvia pequenas doses de cachaça com goles de cerveja.

Lula, o líder das greves no ABC que sacudiram o Brasil a partir da década de 70, estava ali, na mesa ao lado. O PT estava no nascedouro, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) também; convidado a me filiar, recusei, pés fincados no Partidão; o Brasil seguia rumo à redemocratização, só  formalizada sete anos depois, com a Constituinte de 1988, pondo fim a 21 anos da cruel ditadura militar.

Como na reunião dos sindicalistas encerrada há pouco, na mesa do bar Lula conseguia transmitir uma energia e vontade de lutar por um país mais justo. A oratória envolvente, contagiante, eu me lembro, gerava o mesmo clima do discurso feito no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ao sair da prisão injusta de Curitiba imposta por Sergio Moro.  

Bateu nos algozes e chamou para si a condução dos movimentos da oposição ao governo tocado pelo capitão de triste figura Jair Bolsonaro, que “governa para os milicianos”, segundo disse. A fala tem conteúdo, aborda a necessidade de resgatar direitos sequestrados aos mais pobres e a dar um basta no desmonte do Brasil. Citou o exemplo do Chile, o Brasil de amanhã, os milicianos, a pobreza sempre crescente.  

Naquela época, fora libertado do cárcere imposto pela ditadura; agora, sai por força da decisão da Corte Superior, dividida, mas pressionada pelo povo, por instituições democráticas e pela comunidade internacional, contrárias ao rasgo no tecido do Estado Democrático de Direito que ocorre no país desde 2016. Lula saiu gigante, carregado nos braços do povo.

Com a missão de preparar o país para neutralizar o fascismo que avança país afora, tomando as instituições, com representação maciça no Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras de vereadores, tendo o apoio da imprensa conservadora, de sistemas religiosos e da passividade bovina de parte da população.

Lula chegou e, junto a Alberto Fernandez, da Argentina, representa a reação à onda fascista, que tomou o Brasil e avança sobre o continente sul-americano, como agora na Bolívia, por meio dos mesmos métodos usados por aqui, com a participação das oligarquias e de sistemas religiosos disfarçados de igrejas, que usam o nome de Deus para expandir a onda do preconceito, ódio e desigualdade social.

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