'Não há nenhum plano da Fundação Renova para cuidar dos problemas'

Sociólogo Hauley Valim fala da inoperância das autoridades e de estratégias comunitárias para Rio Doce

No início de novembro, a comunidade indígena de Areal, nas proximidades da foz do Rio Doce, recebeu a quarta edição do Encontro de Cultura Ancestral, organizado pela comunidade juntamente com outros povos tradicionais e com os movimentos Regenera Rio Doce e Aliança Rio Doce, com três dias de intensas atividades e trocas entre pessoas de várias etnias e estados do Brasil, mas principalmente daqueles que convivem diretamente com o rio.

Morador de Regência, vila mais próxima de Areal, o sociólogo Hauley Valim é um dos organizadores da iniciativa. Ele contou a Século Diário um pouco mais sobre as propostas para a regeneração do rio e das comunidades, sobre a inoperância dos que deveriam responder pelo crime e a chega do óleo vazado em alto-mar na região.

No próximo dia 21 de novembro, completa-se quatro anos do dia em que a população da pequena vila de Regência Augusta assistiu impotente e melancólica chegada dos rejeitos de mineração que contaminam o rio e o mar, fontes de trabalho, alimento e lazer para a comunidade.

Quatro anos depois do crime da Samarco/Vale-BHP, como você avalia a situação de Regência e do Rio Doce? O que se avançou na recuperação? Quais problemas persistem?

Depois de quatro anos minha conclusão é que muito pouco foi feito em relação`à recuperação que era de obrigação das empresas. A gente não consegue enxergar de fato a mudança que isso deveria proporcionar. Vários projetos que tinham para compensar não foram encaminhados. 

Por exemplo, o projeto paisagístico da vila de Regência nunca saiu do papel. Foram apenas algumas poucas iniciativas, menos de 10% do projeto que saiu do papel, como a construção dos pontos de ônibus que inclusive são precários e continuam jogando sol e chuva nas pessoas que tentam se abrigar. Foram feitas pequenas intervenções paisagísticas ínfimas, que não mudam em nada a paisagem da comunidade. Esse é apenas um exemplo de uma das várias questões que a Renova precisou implementar e que não encaminhou. 

A gente sabe que a indenização depois de quatro anos atendeu uma parte dos pescadores e a maior parte ficou excluída. Então eu não enxergo muita mudança nesses quatro anos de luta, os problemas persistem em relação à saúde, saiu um laudo considerando que há contaminação por metais pesados em 298 das 300 pessoas que doaram o material biológico para ser analisado numa pesquisa da USP, e até hoje nada em termos psicológicos, de saúde para tentar amenizar a presença dos minerais nas pessoas foi feita.

Então não há nenhum plano, nenhuma ação por parte da Renova para tentar cuidar desses problemas. O que Regência tem mudado é a partir dos esforços dos próprios comunitários. A vila tem se esforçado para melhorar os serviços, poder acolher os visitantes de uma forma mais adequada. Mas a situação é sim muito precária, quatro anos depois tudo que foi dito ficou em promessas que não foram cumpridas de parte das responsáveis. Em relação a isso minha avaliação é péssima.

Você participa da rede Regenera Rio Doce. O que vocês entendem como regeneração?

O movimento Regenera Rio Doce é uma narrativa antes de qualquer coisa. E essa narrativa é composta por muitas pessoas, cada uma com sua habilidade, sua forma de ver o problema. A gente acredita que a regeneração já vem acontecendo independente da vontade do ser humano e das políticas públicas. Quando a barragem rompe causando todo aquele estrago que causou ao longo do caminho, tanto em Mariana quanto como em Brumadinho, o lugar onde estavam depositados todos aqueles rejeitos químicos, tóxicos, contaminando e provocando uma dor muito grande naquela terra, automaticamente quando o rejeito saiu daquele espaço a terra começou a respirar, apesar de todos danos que os rejeitos causaram no caminho. Ali a natureza passou a respirar. 

Depois que essa lama toda passou pelos rios foi uma onda de dor, tristeza e destruição mas provocou também processo de regeneração, porque tanto natureza quanto seres humano se viram obrigados a se movimentar para poder cuidar daquilo que estava em volta, de tudo aquilo que foi destruído. Então cada passo dado nesse esforço de melhorar qualidade de vida, de voltar a ter saúde, voltar a ter um equilíbrio psicológico, cada passo dado é uma passo regenerativo. 

O que a gente sente é que para que nós coletivamente tenhamos condições de provocar as transformações necessárias e proporcionais ao tamanho do dano que foi causado a gente vai ter que partir do micro. E o micro é olhar para dentro de si, ver como você foi impactado, em quais áreas foi mais impactado e o que pode fazer enquanto indivíduo e enquanto ser para cuidar dessas águas internas, desses sentimentos que foram impactados, dessa tristeza e angústia que toda essa transformação provocou. Olhar pra isso, cuidar, se fortalecer enquanto indivíduo, se regenerar, buscar saúde para que fortalecido você tenha condições de levar essa mensagem para outras pessoas. 

Indivíduos fortalecidos podem dar uma contribuição maior para a construção dos núcleos comunitários. E núcleos comunitários fortalecidos e regenerados podem contribuir de forma efetiva com a regeneração do Rio Doce. Comunidades enfraquecidas, divididas e destruídas pela lama, pela Renova, Samarco e Vale, não conseguem cuidar de si, quando mais cuidar de um rio.

O Movimento Regenera Rio Doce traz essa força de olhar para dentro e depois olhar para soluções comunitárias. Esse movimento tem trazido essa força da ancestralidade, da saúde coletiva, como ferramentas para promover a regeneração das consequências do rompimento da barragem.

Que boas práticas vocês têm observado acontecer que contribuem para essa regeneração?

As boas práticas estão acontecendo ao longo do rio todo. A gente vê um movimento a partir da agroecologia, dos coletivos e comunidades agroecológicas, um esforço para que nós tenhamos acesso a agroflorestas e alimentos mais seguros. Tem uma rede de saúde coletiva também agora, a partir das práticas terapêuticas alternativas tradicionais e complementares, há todo um esforço em torno do Rio Doce para olhar para a saúde que é esse tema mais urgente que a gente tem. Passaram-se quatro anos, eu acredito que estamos no médio prazo do dano e pra mim o tempo no Rio Doce a cada dia que passa parece que são três dias em função da velocidade com que as coisas acontecem aqui em função dessa explosão energética que aconteceu. Então as soluções precisam chegar mais rápido também. 

Tem galera do Médio Rio Doce, como o povo krenak e o grupo de agroecologia Nagô, que estão discutindo muito a questão da saúde coletiva. A gente tem na Zona da Mata mineira, afluentes do Rio Doce em Manhuaçu, onde estão olhando questão dos cuidados da água. A gente está sonhando muito e estudando muito da saúde com a esperança na homeopatia como medicina capaz de regenerar nossa relação com os metais. 

Mas resumindo, há muitos pequenos pontos, muitos pontos de luz ao longo do Rio Doce em relação à saúde coletiva que precisam ser melhor estruturados para que nessa ausência da Renova, das criminosas e do Estado, possamos com nossos próprios esforços e com baixo custo criar um sistema de saúde capaz de regenerar essa questão de danos que nossos corpos sofreram com o rompimento da barragem.

Sobre o Encontro Ancestral, que contribuições está trazendo para a regeneração?

O Encontro Ancestral traz essa força de regeneração. Nós acreditamos que enquanto indivíduos e comunidades podemos solucionar qualquer problema que nos for imposto desde que a gente se fortaleça e mantenha nossas relações bem ajustadas a partir do afeto. Se a gente tem afeto, tem amor e acredita que a regeneração pode acontecer, qualquer coisa a gente pode fazer.

O Encontro Ancestral traz essa força em relação à ancestralidade, traz inspiração para poder olhar para o passado e ver o que deixou no caminho. Precisamos resgatar para que esse equilíbrio entre nós e as comunidades, e entre nós e a natureza, possa ser regenerado.

Então olhar para as comunidade tradicionais, por exemplo, em relação ao tratamento dado à natureza, é fundamental para que nós, supostos modernos, encontremos um caminho harmônico para vida no Planeta Terra. A ancestralidade traz essa força. 

Dentro do Encontro Ancestral a gente teve a Tenda da Cura que ofereceu umas 15 terapias alternativas, complementares e tradicionais como reiki, massagem, escalda pés, limpezas energéticas, homeopatias e várias outras terapias que a gente acredita que são fundamentais para nosso cuidado nesses tempos que são tão ameaçadores em relação a agrotóxicos, aquecimento global, fragilidade da terra, poluição do ar.

Olhar para essas medicinas alternativas, fora desses sistemas tradicionais de cuidado, é fundamental hoje até em função desse desmonte que o SUS [Sistema Único de Saúde] tem sofrido. Temos que lutar para manter esses direitos mas também criar alternativas de baixo custo para que nossa saúde tenha condições de ser cuidada. O encontro ancestral traz através da tenda da cura essa força. 

Mas a principal  função regenerativa do Encontro Ancestral é fazer com que as comunidades tradicionais se encontrem, se fortaleçam, estejam  prontas para promover pulsões de auto-ajuda, se ajudarem entre si independente de quais sejam os problemas e juntas transformar esse ambiente dramático político e institucional que a gente está vivendo.

Como as pessoas estão reagindo em Regência em relação à chegada do petróleo vazado em alto mar na região?

O óleo vem como mais um dano que nós enquanto comunidade estamos sofrendo na foz do Rio Doce. As consequências que sofremos é apenas uma derivação de grave dano que a natureza vem sofrendo. Então a gente está vendo de uma medida ínfima em comparação ao que aconteceu no Nordeste, estão chegando fragmentos, já chegaram na praia. E as pessoas estão apreensivas. Nesse fim de semana tem o Micafubica que é esse evento  como um carnaval fora de época que comunidade promove, é um esforço para poder regenerar a relação da comunidade com o turismo. E aí nesse contexto mais uma vez a gente sofre outro grande dano que é reflexo desse dano maior que natureza está recebendo na Amazônia, no Pantanal, nas nascentes. As pessoas estão muito apreensivas mas aqui o dano aparentemente não foi tão grande como nas comunidades do Nordeste, ou ao menos ainda não.

Você também é surfista, um grupo social que não foi reconhecido como atingido pelo crime. Por que reivindicam esse reconhecimento? Como está a questão do surf quatro anos depois do crime?

Os surfistas de fato não foram reconhecidos como atingidos. A gente tem provas concretas da presença da lama nas praias e toda vez que a ondulação chega, as ondas grandes de fato promovem rebuliço no fundo do oceano e fazem com que todo aquele rejeito que estava no fundo aflore novamente. Quando tem ondas boas, isso faz com que nossa exposição em relação aos rejeitos seja uma exposição crônica, até porque os surfistas dependem dessa relação com o mar para poder manter o ajuste energético e psicológico, para continuar enfrentando todos esses desafios que estão aí.

Quatro anos depois do crime a gente não foi reconhecido, a gente sabe que está contaminado, principalmente em relação aos rejeitos da Samarco. A gente está com níquel, arsênio e manganês em excesso, e o bário em função da exploração da Petrobras, que é responsável pela contaminação do subsolo. A gente não sabe se o tipo de exposição que a gente está sujeito de fato provoca danos crônicos com o tempo. E essa grande dúvida que está aí todo dia também é um grande dano a que a gente está sujeito. Essa ausência de informações também nos danifica e agora também junto com presença do óleo nas praias a gente não sabe como isso vai se agravar, essa questão da exposição que os surfistas estão sujeitos.

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