História da banda Os Mamíferos chega aos cinemas

Grupo marcou época na música capixaba e vai às telas nacionalmente no documentário Diante dos Meus Olhos

Entre 1966 e 1971, a banda Os Mamíferos marcou época na música capixaba. Com um som conectado com o movimento contracultural que explodia na época, o grupo juntou elementos de rock, jazz, psicodelia e irreverência, mas acabou repentinamente após o épico festival de música em Guarapari, que acabou de forma conturbada em plena ditadura militar. Quase 50 anos depois, o projeto Aurora Gordon e o cineasta André Felix trazem às telas de cinema um pouco dessa história, contada pelos integrantes do grupo, pessoas da cena cultural da época e preciosas imagens de arquivo.


Os Mamíferos eram um grupo em sintonia com as mudanças de seu tempo

O documentário Diante dos Meus Olhos estreia nesta quinta-feira (5) em circuito nacional, entrando em cartaz no Espírito Santo no Cine Metrópolis e Cine Jardins, ambos em Vitória. Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mario Ruy, que foram os jovens protagonistas de Os Mamíferos, retornam no filme, agora setentões, com suas vidas comuns e lembranças daqueles tempos de efervescência. Afonso e Grijó seguiram carreira na música e Mario Ruy, embora tenha seguido outras tarefas profissionalmente, também não deixou de compor e tocar.

“Eles têm um amor meio louco um pelo outro. Pude perceber que ainda estão muito ligados”, diz André Felix, que lança seu primeiro longa-metragem e busca inovar no formato do documentário musical, gênero que costuma trazer modelos bastante pausterizados. “O que mais me chamou atenção na história não era o que a tornava grandiosa, mas a questão do fracasso deles. Eu acho que esse é o elemento político, exatamente no momento em que nos permitimos documentar o nosso fracasso. E mexer na história da música brasileira, que é, em todos os sentidos, nosso maior bem, falar da geração dos anos 60 e 70, me encantava. Eu acredito que, quando existe uma falha, é muito mais interessante documentar do que quando se tem um sucesso”, comenta o diretor.


Documentário mostra os ex-integrantes da banda quase 50 anos depois

Um rompimento do grupo em 1971 foi um momento traumático, que ainda ressoa nos ex-integrantes do grupo. “É um documentário que se debruça sobre uma banda e sobre sonhos que não se realizaram. Uma história de amor que acabou repentinamente deixa feridas mais difíceis de fechar. O filme não é sobre o que aconteceu, mas também sobre o que está acontecendo na vida deles por meio dessa história”, diz André Felix sobre o documentário que foi exibido no Festival Internacional do Uruguai, Festival Internacional de Curitiva, Pirenópolis Doc, Festival de Cinema de Vitória, Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, entre outros.. 

O fatídico festival de 1971, que ficou conhecido como Guarapastock, no embalo do lendário Woodstock, que aconteceu anos antes nos Estados Unidos, é muito presente na história. Os Mamíferos revelam sua a versão sobre o festival que culminou numa fratura que levou ao seu término antes que pudessem alcançar voos maiores.

“Em suas várias e diversas manifestações, em diferentes linguagens, atividades e setores da vida, a contracultura chegou aos holofotes em 1968, com seus ‘maios’ e suas ‘primaveras’, mas o fato é que suas bases já vinham sendo fomentadas desde muito antes. Em 1966, Os Mamíferos já estavam bem atentos a todo este 'zeitgeist'. Como eles, toda uma rede de artistas e pensadores capixabas buscava traduzir em âmbito local as urgências que agitavam as transformações em curso. Eles produziram em alta voltagem um conjunto de canções absolutamente 'à altura do presente', junto com figuras que foram se aproximando em torno do grupo por magnetismo ou afinidade eletiva, caso do cantor Aprígio Lyrio, dos compositores Sérgio Regis e Rogério Coimbra, e do músico e compositor Arlindo Castro, por exemplo”, explica Carlos Dalla, músico e um dos produtores do documentário.


'Diante dos Meus Olhos' é o primeiro longa-metragem de André Felix, que busca inovar no documentário musical

Apesar da sintonia com os tempos que se vivia e do sucesso local na época, Os Mamíferos nunca gravaram um disco, o que André Felix entende que ajudou com que a banda caísse num certo esquecimento e não tivesse seu nome lembrado na história da música brasileira e mesmo na capixaba. “Os Mamíferos foram a maior expressão da música brasileira da qual você jamais ouviu falar”, aponta texto de Eduardo Ribeiro na época do lançamento do livro Os Mamíferos – Crônica de uma Banda Insular (2017), de Francisco Grijó, produzido a partir do projeto Aurora Gordon, capitaneado por Murilo Abreu, filho do mamífero Afonso, em busca de resgatar a memória desse movimento contracultural capixaba dos anos 60 e 70 com seus shows, manifestações e contestações em plena ditadura, que ocorriam em paralelo com outros grupos e movimentos que tiveram alcance nacional como Novos Baianos, Secos & Molhados e Clube da Esquina.

O Aurora Gordon também realiza a produção de Diante dos Meus Olhos e a banda criada pelo projeto estará presente numa sessão especial no sábado, às 17h30, no Cine Metrópolis, trazendo ao vivo vários dos sucessos da época. O documentário entrará em cartaz no Cine Metrópolis nesta quinta-feira (5) com sessões em horários diversos até a próxima quarta-feira (11). No Cine Jardins, o filmes estreia nesta sexta-feira (6) e segue em cartaz sempre às 21h15. Diante dos Meus Olhos estreia também na primeira semana de exibição no Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e São Luís (MA). Posteriormente, entrará nos cinemas em Porto Alegre (RS) e outras cidades a confirmar na próxima semana.

AGENDA CULTURAL

Documentário Diante dos Meus Olhos, de André Felix

Quando: a partir de quinta-feira (5)

Onde: Cine Jardins – de sexta-feira (6) a quarta-feira (11), às 21h15 / Cine Metrópolis – quinta-feira (5) às 18h, sábado (7)* às 17h30, segunda-feira (9) às 20h, quarta-feira (11) às 14h e 18h20. 

*Sessão especial seguida de show com a banda Aurora Gordon

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1 Comentários
  • Carlos , quinta, 05 de dezembro de 2019

    Os Mamíferos marcaram minha adolescência, éramos vizinho de Mário Rui e amigo de Paulinho irmão de Mário, que foi baterista do Conjunto Musical "Os Infernais", que tinha Klinginho, Garibú e Alverte. Acompanhamos os Mamíferos em todos os momentos possíveis, tanto em shows como em ensaios na Praia do Canto, na casa de José Renato, no Teatro Carlos Gomes, etc. Para gente era um privilégio acompanhar os Mamíferos, porque você estava ao lado dos seus ídolos. Mário, Afonso e Marco Antonio Grijó eram amigos de vários artistas baianos famosos como Gal, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Zé da Bahia, Pepeu Gomes inciando na carreira. Lembro que quando eles comentaram com os baianos que o Espírito Santo iria fazer um Festival de música "igual" a Woodstock" os baianos duvidaram. Não foi igual, mas foi feito e por sinal muito bom. Não podemos deixar de lembrar de Aprígio Lirio grande cantor, ganhador do festival de Música do Espírito Santo com a música "Agite antes de usar". O Festival de Música de Guapari também foi um marco na história da música brasileira. Passamos uma semana vivendo com Hippies nas Três Praias com muita Festa e Rock'roll. Bons tempos apesar da intervenção militar.

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