Tem jeito pra tudo

Nos tempos em que o mundo era considerado um vasto campo plano, supunham existir um fim do mundo

A Fazenda Monte Além fica no fim do mundo, lá pelo interior de Miragé. Bem, não tão ermo assim para quem vai de carro ou pega  ônibus, mas para Zeldia, que ali nasceu e cresceu, era o lugar mais isolado que já existiu. Quando estava na idade escolar, uma professora vinha de Colatina para as aulas de português, matemática e história. O catecismo a avó Erdina, católica de carteirinha, ensinava. Órfã de pai e mãe desde a infância, criada pelos avós, Zeldia dali só sairia casada. Mas com quem casar se ali ninguém ia e nem vizinhos tinham?

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Nos tempos em que o mundo era considerado um vasto campo plano, supunham existir um fim do mundo, embora ninguém mencionasse o começo do mundo: o lado oposto. No entanto, devia haver um lugar inalcançável onde o mundo acabava, que ninguém sabia onde ficava, e caso ali chegasse cairia no vazio - o chamado oco do mundo. Mas após alguns milhões de anos de vida humana na terra, se alguém lá chegou não voltou para contar onde ficava. Sem amigas, esses pensamentos enchiam a cabeça de Zeldia, para quem até os romances água-com-açúcar eram proibidos. E apesar das rezas, muitas folhas foram arrancadas da Bíblia caseira, que Dona Erdina julgava impróprias para uma jovem solteira. 

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Uma estrada passava ao longe, ligando partes do mundo que a menina desconhecia - a Fazenda Monte Além era apenas um acidente entre um ponto e outro do percurso. Ali ninguém parava e só Tio Eustáquio transitava entre esses lugares tão misteriosos quanto Marraquexe e Mar-a-água. Apesar do asfalto, no tempo das chuvas os aguaceiros constantes quebravam o cimento e formavam um lamaçal, atolando os poucos carros que por ali passavam. Quando isso acontecia, o negro Fulino vinha de lá com o carro de bois e ajudava os motoristas a sair do buraco. Essa se tornou a única distração de Zeldia na fazenda: ver o negro Fulino espetando os animais com o ferrão, Ôa, Matreiro! Ôa Carrapato! para puxarem a condução, às vezes caminhões carregados de toras de madeira ou pedras de mármore.

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Lá vem a menina no cavalo baio assistir a empreitada, e cantava também, Ôa Matreiro! Puxa Carrapato! E ria, feliz. Se a estrada era asfaltada, não se entendia aquela interrupção no trajeto. “Deve haver um olho d' água minando por baixo do asfalto”, o negro explicava. No tempo seco vinham os engenheiros do governo  consertar o estrago, jogar umas pedras de reforço, plantar capim em volta pra segurar a erosão. Mal as chuvas começavam e a estrada alagava. O negro nunca cobrava pelo serviço, nem podia, o carro e os bois eram da fazenda. Nem se queixava do serviço pesado - às vezes vários carros atolados ao mesmo tempo, mas felizmente nenhum acidente sério ocorreu. 

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A belezura da menina voando nas asas do cavalo,  pele morena, cabelos negros ondeando cachos soltos no vento, olhos azuis como ágata. Quem é a garota? Perguntavam, e o velho cochichava,  Neta dos donos da fazenda aqui perto... Até que um carro vinha muitas vezes, e ficava espiando… mesmo sem chuva e sem atoleiro. O velho vinha de lá puxando a parelha, Matreiro e Carrapato, olhos de mansidão, “Algum problema com o carro, moço? Não, parei só pra dar uma descansadinha. E olhava a menina no cavalo, banhada na luz da manhã, uma visão. 

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Um dia o moço bateu na porta de jacarandá maciço, pediu licença, se apresentou. A menina tímida, olhos baixos, vestido de renda branca, laço azul combinando com os olhos azuis. Pura lindeza.  Moço de boa família, tio e avós não puseram resistência. Partiram e foram felizes para sempre. Mas nem tudo dura para sempre, e o lamaçal na estrada acabou de repente. Vinha chuva, vinha vendaval, e nunca mais foi preciso levar o carro de boi pra puxar motorista atolado. Quem conta essa história é o próprio  negro Fulino, rindo da própria esperteza, enquanto joga no ar a fumaça do cachimbo. Dizem que fumo mata, mas já entrou nos noventa e continua comandando os bois.

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