Sobre as nuvens

A aldeia global já não tem segredos, nenhum lugar é inatingível

O trem apita na curva do pontilhão anunciando sua chegada, e adentra com estardalhaço  a próxima estação. A fumaça da  fornalha e o vapor dos freios avisam: Estou chegando! Mas ir ou vir depende do lado que o trem avança. A vida é uma viagem, com chegadas e partidas. Há os que vão para voltar, há os que vão para ficar, seja na ida ou na volta. Primeira classe, bancos de palhinha; segunda classe, bancos de madeira. Os mais cuidadosos vestindo guarda-pó para evitar que as fagulhas da fornalha queimem a roupa nova. Bonito vê-las, estrelas dançando nas noites escuras enquanto o trem noturno diminuía ou aumentava as distâncias, criava ou sanava saudades. 

*

Tudo isso é passado, findo e acabado - a velha maria-fumaça já não resfolega pelos trilhos de nossa terra, vencendo distâncias, num eterno vai e volta. Ou ir sem volta. Mas deixou saudades. Depois deles vieram os ônibus, menos românticos, sem passado e sem história, desengonçados. Derrapando nas  estradas lamacentas, mal conservadas, esburacadas, resfolegando por caminhos empoeirados, sacolejando nas costeletas criadas pelas chuvas. Calorão, choro de criança, radinho de pilha, excesso de sacolas espalhadas em volta. 

*

Veio o asfalto, mas também esse mal cuidado, esburacado, comido pelas chuvas ou pelo excesso de tráfego, sumindo aqui e ali para reaparecer mais na frente, com  crateras e cicatrizes. Incentivou o carro próprio e facilitou as viagens, criando congestionamentos e poluição. Ceifando vidas com ultrapassagens perigosas, carros mal conservados e motoristas irresponsáveis. Engordando estatísticas sinistras - o Brasil tem um dos piores índices de mortes por acidente nas estradas.  

*

Aos poucos os aviões invadiram o céu e o cenário. As distâncias encurtaram, as viagens aumentaram, o turismo virou moda. Apesar das constantes altas do preço da gasolina e das passagens aéreas, nunca se viajou tanto. Enquanto as distâncias diminuíam e as poltronas encolhiam, os aviões cresceram e os preços engordaram. Veio o boom do turismo local e internacional, desenvolvendo cidades, tornando conhecidos locais dos quais nunca se ouvia falar. Desmistificaram lugares que jamais se sonhava conhecer. 

*

Certa vez, ainda morando no Brasil, fomos ao Rio encontrar um coreano em viagem de negócios. Sua estada era curta, e terminada a interação comercial perguntamos se havia algum lugar que quisesse conhecer antes do próximo voo. Ele disse: Copacabana. Foi só o tempo de tirar o sapato, deixar o carro e correr para molhar os pés nas ondas: Não acredito que pisei no mar de Copacabana! Foi embora feliz. Quantos lugares se tornam lendas em nossa imaginação, quase místicos, e achamos que jamais lá chegaremos? E quando uma cara e cansativa viagem de avião nos leva lá vemos que valeu a pena. Santa felicidade!

*

A aldeia global já não tem segredos, nenhum lugar é inatingível, embora a maioria da população mundial nunca tenha tirado um passaporte. O turismo, outrora chamado a indústria que não polui, hoje tornou-se uma das mais poluentes, e governos mais antenados tentam frear sua expansão. Mesmo assim, os aviões viajam quase sempre lotados, os aeroportos estão sobrecarregados e mais voos vão sendo criados todos os dias. Enfrentamos galhardamente filas e esperas intermináveis - Shangri-la é logo ali

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para manter ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.