Retalhos de vidas

Um texto literário é como um álbum de fotografias ou de recortes, relíquias roubadas, colecionadas ou emprestadas

Às vezes há quem pergunte de onde vem a inspiração, seja para um romance, um conto, ou esse despretensioso texto que oscila entre 500 e 600 palavras, dependendo do clima, do assunto, do tempo disponível: 500 soldados marchando da esquerda para a direita, de cima para baixo, separando-se uns dos outros com espaços, pontos, vírgulas, parágrafos. Mas não há lei nem regras na composição desses mosaicos formados por lembranças que sobrevivem por conta própria. Independem umas das outras, pois tanto podem estar juntas ou separadas, na primeira ou na última linha, sem acento ou com acento, seja grave ou circunflexo.

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Um texto literário é como um álbum de fotografias ou de recortes, relíquias colecionadas no dia a dia, roubadas ou emprestadas das experiências próprias e alheias, às vezes mesmo sem se perceber. Fragmentos, reminiscências, observações, devaneios. Como nas guerras e nas artes, vale tudo: uma coletânea de medos, ressentimentos e decepções, ou ao contrário, uma panaceia de suspiros, expectativas e esperanças. Lidos ou ignorados, lembrados ou esquecidos, amados ou desprezados, no entanto caminham por conta própria: o fim é o ostracismo, a curto ou longo prazo.

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Nesse caldeirão da bruxa tem de tudo: um trevo esquecido entre as páginas de um livro;  o botão de uma blusa; roliças pedras lapidadas pelo mar; um brinco solitário que se desgarrou do par; um bilhete aéreo de alguma viagem já esquecida; um pequeno origami já perdendo a forma; um poema recortado de alguma revista; um colar sem o fecho; uma folha de papel com um número de telefone que não existe mais… esquecimento e renovação. Cada mínimo objeto conta uma história, tem passado, é só ir atando as pontas, grudando as partes, e a história se faz por si mesma. Quando chamada à vida, a fênix renasce das próprias cinzas. 

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Observo o velho casal sentado em um banco na praia, de mãos dadas olhando o mar.  Vêm todas as tardes, ficam apenas meia hora. Não conversam, mas parecem estar tranquilos e felizes. Gostaria de ir até eles e perguntar quem são, como se conheceram e há quanto tempo estão juntos... Quantos filhos e netos? Uma história fácil de antecipar, acontece todos os dias: se conheceram ainda jovens, se amaram, se uniram para sempre, envelheceram juntos... Mas pode ser também uma história diferente das outras.

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Helio e Hélia talvez nunca se achassem, não fosse pela coincidência dos nomes. Estavam ambos na praia, sombrinhas vizinhas, ele com a noiva, ela com o namorado. A noiva ouviu o nome, achou engraçado, puxou assunto... um mês depois Hélio e Hélia estavam desesperadamente apaixonados e infelizes. Terminar um noivado com o casamento marcado, salão reservado, flores encomendadas, vestido pronto e duas famílias envolvidas só acontece nos filmes. Hélio casou com Lana, dois filhos, quatro netos. Hélia casou com Lúcio, três filhas.

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Um dia, por acaso, o reencontro, e apesar dos anos ausentes e da terceira ou quarta idade, viram que o antigo amor ainda estava vivo.  Poderiam se separar, divorciar, partir e não voltar. Adeus e nunca mais. Mas nenhum dos dois agiria assim. Resta-lhes apenas esse fugaz momento ao entardecer, o mesmo banco naquela mesma praia, o mesmo mar indiferente. Nada a reclamar ou condenar. A vida traça os rumos, só nos resta segui-los. A frágil meia-hora que passam juntos se dissolve ao pôr do sol. Eles se levantam e se olham nos olhos. Um sorriso triste, Até amanhã, se não chover. Seguem o destino que não escolheram, mas resta-lhes um consolo: esse amor impossível foi a melhor coisa que aconteceu em suas vidas.

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