O Tantra e a relação mestre-discípulo (Gupta-Vidya)

O caminho espiritual deve ser trilhado com consciência, ética, autoentrega e alegria

Como filosofia comportamental, o Tantra vai estabelecer normas de conduta para que se estabeleça uma produtiva relação entre Mestre e seus discípulos (Gupta-Vidya). Lembremo-nos de que o Hinduísmo, no qual o Tantra se insere, é uma sociedade moral, preocupada com o caminho espiritual dos seres humanos.

Sabe-se que, em todo relacionamento entre pares, sempre tem de haver normas explícitas e normas implícitas, as quais devem ser observadas por ambas as partes para que o relacionamento progrida e ambos os parceiros possam se desenvolver nas experiências vivenciadas por eles.

No caso do relacionamento Mestre e Discípulo, dentro do Tantrismo, as normas também estão presentes, sejam de forma implícita, sejam de forma explícita. Ao se abraçarem essas normas, mesmo que de forma não explícita, a relação tenderá a se instituir com menos arestas e com mais intensidade nos caminhos traçados.

Dentro do Tantrismo Dravidiano, a relação Mestre/Discípulo é marcada por um zelo amoroso e amigável, mas também é marcada por uma disciplina e comprometimento muito rigorosos, pois o Tantra se constitui em uma filosofia comportamental que visa a acordar o Sadhaka, retirando-o do estado de sono (Avidya=Ignorância), estado em que, frequentemente, se deixa imergir.

Estados emocionais, mentais ou espirituais perturbadores, como o de Mudha (estupidez), Styana (preguiça mental), Samsaya (dúvida), Vikshipta (agitação e descontrole) podem dominar aquele que caminha em Marga e o afastar da Senda, assim como Kleshas (obstáculos) como Viadhi (doenças), Shwasa-Prashwasa (alento irregular), Alasya (comportamento inerte), Raga (comportamento egoísta), Dukha (dor), Daurmanasya (desespero).

Nessas situações a tendência do Sadhaka é a de se deixar levar por hábitos nocivos à sua saúde física, psíquica ou espiritual, como o de deitar-se tarde e levantar-se tarde (hábito imensamente comum nos grandes centros urbanos) e o hábito de se alimentar erradamente, sucumbindo, muitas das vezes, ao cardápio imensamente nocivo presente nas sociedades atuais.

Em função de todas essas questões, o Tantra criou uma série de normas e técnicas (entre elas a prática do Yoga Tântrico – no nosso caso, de Shivam Yoga) para retirar o Sadhaka de um estágio de Mrdu (Sadhaka com fraca energia e disposição para caminhar na Senda), para chegar a atingir um estágio Madhyama (média disposição e energia para caminhar na Senda), e possibilitar-lhe adquirir Virya (entusiasmo), alcançando estados mentais de Ekagra (esforço e disciplina) e alcançando, assim, o estágio de um Sadhaka Adhmatra (forte disposição e energia para caminhar na Senda), e, posteriormente, chegar a atingir um estado mental de Nirudha (perfeito discernimento), alcançando, dessa forma, o estágio de um Sadhaka Adhmatratama (discípulo com muitíssima força para caminhar na Senda e se transformar completamente).

Para o Tantra Dravidiano, o qual abraçamos, fazem-se necessárias certas qualificações (Adhikara) do discípulo, denominado, nesse caso de Shishya.

Um texto tântrico, denominado de Shaaradaa-Tilaka-Tantra, apresenta as seguintes características para um bom discípulo (Adhmatra) ou para um ótimo discípulo (Adhmatratama):

. Caráter íntegro;
. Esforço na busca do autoconhecimento;
. Estudioso dos textos relacionados à Senda (Textos Tântricos=Tantriks);
. Habilidoso ou esforçado;
. Interessado em atingir o Samadhi;
. Amoroso para com todos os seres do Universo;
. Mente clara e objetiva;
. Não tendo dúvidas sobre a necessidade de caminhar na Senda;
. Cumpridor do seu Dharma como dever;
. Esforçando-se para cumprir em Ishwarapranidhana suas missões;
. Receptivo e gostando de ouvir;
. Receptivo para com os ensinamentos de seu Mestre;
. Não dando importância à posição social, cultural ou de status material de seu Mestre;
. Estar disposto a se dedicar com esforço, disciplina, autoentrega, desprendimento e alegria pelo seu Mestre;
. Estar disposto a se dedicar com esforço, disciplina, autoentrega, desprendimento e alegria pelo Ashram que abraça.

Todo esse arcabouço ideológico e filosófico, também, pode ser aplicado em variados tipos de relacionamentos, como os profissionais, os familiares, o de casais, entre outros.

Uma norma que deve sempre ser observada refere-se ao grau de felicidade entre as partes. Como pensa também o Tantra, alegria traz realizações e infelicidade traz frustrações e, muitas das vezes, se não nos sentimos realizados e felizes, podemos criar para nós um campo kármico de confusões e, mesmo, de destruições. Por isso o Tantrismo é pensado como uma filosofia do prazer e da liberdade. Escolha seus caminhos... com consciência, ética e responsabilidade.
 


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