#Ingratidão, essa pantera

O drama humano é como uma gangorra: um tem que descer para que o outro suba

Passo distraída e o sujeito me aborda: “Li sua crônica sobre ingratidão”. Meu espanto é tão grande quanto a dor de uma ingratidão: um leitor em Miami? Ele ri, não é de onde você escreve? Tá certo. Entusiasmada, convido: Vamos comemorar, pago a pizza ou um hambúrguer... O sujeito fica meio desconfiado: Quê  isso, não precisa!  Imagina se a Lya Luft fosse pagar pizza ou hummus aos leitores... Mas esse é exatamente o ponto: euzinha não tenho milhões de leitores e achar um nas ruas de Miami, onde inclusive ninguém anda, merece até champanhe. Mesmo assim olho em volta, conferindo se alguém da família tramou uma pegadinha e está escondido por perto. 
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Mas como disse, ninguém anda nas ruas de Miami, principalmente tarde da noite, onde algum possível furacão pode estar rondando nas vizinhanças. E como os tempos andam temerosos, peço comprovação do fato, ou seja, Qual o assunto da coluna que você leu? Já sonhando que ele dissesse, Leio todas, não perco uma, acordo cedo no sábado para ser o primeiro…Embora a escritora ande meio relaxada e nem todo sábado… Admito a falha, fazer o quê ? Compromissos inadiáveis me detêm, peço desculpas.

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Para minha decepção ele admite que leu apenas aquela do sujeito que ganhou sozinho na loto e Mary, a companheira de muitos anos, roubou o bilhete premiado: nunca mais viu a ex-amada nem o bilhete, afinal um papelzinho pequeno e sem assinatura. Deveriam exigir identidade na hora da compra. Sim, escrevi essa crônica em algum dos meus sonhos, mas esqueci de publicar, portanto, como você leu uma história que de fato escrevi mas oficialmente não existe? Ele me olha como se falasse com um a criança, Madame, a senhora não entendeu ainda? Sou o Amualdo, o personagem da crônica!

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Como dizem os americanos: Oh! My! God! Achar um leitor já é uma façanha rara e imprevisível, mas achar um personagem é astonishing, como dizem os americanos. Na maioria das vezes, nós é que os achamos, e sempre depois de procurar muito. Não admira que ele tenha recusado a pizza. Dou-lhe um abraço, peço desculpas por tê-lo deixado numa situação difícil, e pergunto o que ele faz na rua a essa hora da noite, com esse temporal em vias de virar furacão ou dilúvio. Estou procurando a Mary. Talvez a senhora possa me dar alguma dica sobre o paradeiro da traidora. Digo para não perder tempo e ir cuidar da vida, não era tanto dinheiro assim e ela já deve ter gasto tudo com garotos.

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Amualdo fica ainda mais amuado: Não é esse o final que quero para minha história. Faz o favor de mudar seu enredo, tipo, era muito dinheiro e ela volta para mim.... Olha,  às vezes exagero nas minhas histórias, mas sou contra o feminicídio. Aliás, sou contra todos os ídios e seus malefícios. Ah, mas ficar sem dinheiro e sem a Mary pode? Isso é  maleficio da pior categoria, maldade pura. Explico que final feliz não vende ingresso nem ganha Oscar. Ninguém gosta de jogo que termina empatado. Se ele ficou na pior, a Mary ficou numa boa e o relacionamento  já devia estar mais pra lá do que pra cá. 

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Amualdo vira a esquina e some na neblina, como toda imagem refletida no espelho. Sigo meu caminho preocupada: errei eu ou a culpa  é do destino? Se algum dia você descobrir que é personagem de uma das minhas histórias, veja o desenlace do ponto de vista literário, apenas. Toda trama tem dois The end como dizem os americanos: um bom para uns, outro ruim pra os outros. Essa é a lei da compensação do bem-estar comum. Não importa de que lado você ficou, estará sempre contribuindo para a felicidade de alguém. O drama humano é como uma gangorra: um tem que descer para que o outro suba.  

P.S.: Feliz Dia das  Mães para todas que têm filhos/filhas e para todos/todas que têm ou já  tiveram mães. 

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