Fake news

Hoje chamam de Fake News, mas já era praticado muito antes do computador nos entrar portas a dentro, dominando tudo e todos

Já sabe da última? Tá sabendo? Nem te conto... Expressões muito usadas na velha arte de bisbilhotar a vida alheia e espalhar boatos como quem semeia ventos e tempestades. A prática nasceu com os primeiros hominídeos, nossos parentes dos macacos. Ou seriam as primeiras "hominídeas", visto que o boato e o disse-me-disse ainda hoje, nesses tempos de iguais-mas-nem-tanto, são considerados coisas de vizinhas desocupadas, entediadas entre a panela no fogão e as fraldas no tanque. Como se alguém conseguisse ficar desocupada nessas antigamente chamadas lides domésticas. No entanto, recentes pesquisas da Peoples' University, em Harvard, revelaram que também os homens se dedicam a esse esporte, e com o mesmo empenho. E quem não se apressa em passar a notícia quente, em primeira mão? Espalha primeiro, e depois a gente vê se é verdade.

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Vou te contar, mas não conta pra ninguém, é segredo... e os ouvidos se aguçam, o sangue nas veias se acelera, a adrenalina dispara, a libido pula de alegria. Portanto, a fofoca estimula o cérebro, equilibra o metabolismo e faz bem para o corpo, garantem os pesquisadores. Mas para a alma a situação é mais delicada, dependendo dos parâmetros sociais e emocionais. Já te contei? Milton foi flagrado num restaurante da orla com a Manaíra Madeiros... Podia ser apenas um papo amigável, ou não, mas a notícia chega aos ouvidos da Moira, que corre para passá-la adiante:  passa pela Murila, pela  Maltina e chega aos ouvidos da Melia, a ex do Milton. Que fica numa pior porque Manaíra é mais jovem, mais magra, e ganha mais do que ela. Esticando feito elástico, o  fato tem outra roupagem quando chega aos ouvidos da Melia: os dois estavam aos amassos na frente de todo mundo.

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Quem conta um conto aumenta um ponto, ou dois ou três, no que o vulgo, esse pajé dos incompreendidos, chama de dourar a pílula. Quanto mais quente, melhor. Milton e Manaíra se conhecem e se encontram por acaso em um restaurante. Manda a boa educação que se cumprimentem e troquem algumas banalidades, e cada qual segue seu caminho. Quem viu passa adiante dizendo que eles estavam de mãos dadas, olhos nos olhos. Na segunda versão falam que os dois estavam se beijando, e na terceira onda  falam que já estão transando. Também chamam esse desenvolvimento natural de bola de neve, ou onda no mar, crescendo sempre. O dicionário designa como xereta: prática comum de fiscalizar a vida alheia: a vizinha da direita vive de papo com o vizinho da esquerda; o filho do síndico veste calça legging muito apertada e põe rímel nos olhos,  - Pra te enxergar melhor, ele explica às fofoqueiras de plantão - a faxineira que sai do serviço com a sacola cheia, o morador da cobertura que não trabalha, a moradora do térreo que vive de porre.

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Ninguém escapa aos olhos atentos da patrulha do mexerico. Hoje chamam de Fake News, mas já era praticado muito antes do computador nos entrar portas a dentro, dominando tudo e todos. Sem nem mencionar seus sub-produtos, dos quais não mais nos desgarramos. Ah, nem te conto... Conta sim, deixa de mistérios porque se começou tem que terminar. Não vou contar porque você tem a língua solta e não sabe guardar segredos. E você sabe? Fala logo ou não te conto quem estava aos tapas com alguém que você conhece ontem no shopping. Briguinha de marido e mulher? Muito melhor, querida, os dois são casados, mas com outras pessoas... Tá bom, eu te conto e você me conta. Pode confiar, somos amigas e minha boca está selada... Está mesmo? No quesito vida-alheia ninguém confia em ninguém, mas todo mundo se intromete.

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Tá sabendo que o Janildo está na lista da Lava-à-Mão?  Pois é, cara, tô sabendo. Você sabia e não me disse nada? Amigo é pra essas horas, meu! Eu sei, mas me pediram segredo de estado. A mim também, e mesmo assim vim te contar. Os dois rompem os laços de amizade com Janildo apesar de serem amigos desde o jardim de infância. Janildo se dizia amigo da gente, mas tava entrando numa grana preta com propinas e nunca pagou sequer uma rodada de cerveja pra gente. Pois é, e quando ia gastar os dólares em Miama dizia que estava no sítio do avô, pra não trazer presentes. Gastava todo o dinheiro em Melatonina, que já há muito tempo ele não conseguia dormir, sabendo que a qualquer momento um delator ia lembrar dele...

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Tem ainda a fofoca-recado, malévola, difícil de remediar ou revidar. Farita diz para Fiana: Vou te contar porque sou sua amiga, mas jurei guardar segredo. Por favor não me ponha em situação difícil. Jura? Faz de contas que não sabe, mas Fenia me disse que você é falsa, feia, fingida, fofoqueira e fúnebre... Que preciso ter muito cuidado ou você me toma o Fábio... Fiana ouve a notícia e fica sem saber se Fenia realmente falou tudo isso, sabendo que não haverá confronto, ou  foi a própria Farita quem inventou tudo, porque morre de ciúmes do Fábio, aquele lesma-morta. Na dúvida,Fiana revida dos dois lados, falando mal da Farita com Fenia e vice-versa, falando pior da Fenia com Farita. De ambas exige juramento selado, mãos sobre a Bíblia, de que não vão contar. Tudo Fake news, mas como provar? Espalhe um saco de confetes ao vento, depois vai recolher.

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