Caminhos e Acertos Kármicos

Um relato sobre o Ayurveda, aceitação e cura

O relato que se segue, creio, será de interesse do leitor, uma vez que, por meio dele, falo de saúde, segundo concepções do Ayurveda, que, entre nós ocidentais é traduzido como Medicina Tradicional Indiana. Saúde é sempre um tema valioso e Ayurveda está sendo bastante difundido entre nós, despertando muita curiosidade entre leigos e público que trabalha com a saúde.

Preâmbulo

Quando concretamente percebi minha fragilidade física (mobilidade comprometida drasticamente), eu já vinha lutando para não aceitá-la. O embate foi recrudescendo, dia após dia, até o momento da aceitação. 

Após, muitos paradigmas tiveram de ser desconstruídos: 1 – “Sou frágil como qualquer humano”; 2 – “Necessito de ajuda externa a mim”; 3 – “Terapias diversas a mim podem ser-me úteis”; 4 – “A Medicina Alopática está disponível”.

Quebrar tais barreiras se constituiu em um processo doloroso, mas a “urgência” e a “fragilidade” agiram e os “Caminhos e Acertos Kármicos foram se consolidando”.

Visualizações e imaginações

Depois de muitas experiências com o “outro lado” do mundo terapêutico e alopático e a fragilidade batendo à porta com frequência e intensidade, surge: “E um tratamento ayurvêdico na Índia?”

Muitos foram os processos de visualização em direção a essa concretização... Já havia estado naquele país  por treze vezes... mas ficar “habitando” um Hospital Ayurvêdico dias e dias com – talvez – severos tratamentos me amedrontavam... viajar dois dias com as pernas fracas... tomar Ghee era um “medo” concreto... não gosto de manteiga desde criança e o Ghee é mais forte... Como praticar Yoga tão enfraquecido... amanhecer e meditar diariamente... bom tudo imaginação... a fragilidade cria alguns “monstros” e eles me atormentavam...    

Nesse momento em que escrevo esse relato, estou em um processo de “Caminhos e Acertos Kármicos” em um Hospital Ayurvêdico, cidade Kochin, Estado de Kêrala, na Índia. Comigo vieram Mukesh (indiano por mim adotado) e mais dois de nossos instrutores de Shivam Yoga.

Impressões (primeiras)

Índia – minha velha conhecida – aqui novamente estou... agora precisando de sua efetiva doação... do saber milenar ayurvêdico... à minha concreta pessoa...

O táxi percorrendo caminhos do aeroporto ao Hospital Arya Vaidya. Os famosos “outdoors” de muitos belos saris em indianas afetivas e belas... outros com “políticos... sempre... país das contínuas eleições”... “novas tecnologias também expostas”... Kochin também espelha a concreta Índia... sinfonia “buzínica” presente e a confusão de pessoas e de outros seres e máquinas agigantando-se aos nossos olhos... pelo menos para os meus... A presença arquitetônica inglesa, por sua vez, também apresentava sua força... propiciando um toque diverso ao sempre marcante “caos Hindu”... o fantasma da cultura ocidental pairando ainda pelos espaços e pelo movimento citadino.

Ainda reverberando a cultura inglesa, vejo resquícios dela no nome do espaço onde me encontro “Hospital” e não “Ashram”.

A cultura hindu, porém, se faz evidente e forte nos próprios indianos do referido Ashram: solícitos, simples, naturais e, por isso, talvez, leves... até na forma de andar.

Cada um em suas missões dhármicas, efetivando hierarquias naturalmente e eternamente. 

Com destreza, tarefas vão sendo cumpridas em meditativos movimentos. O Dharma (harmonia do Universo) sempre prevalecendo sobre os Adharmas (estados de desequilíbrios). Estes, os Adharmas, cotidianamente, chegam até nós, testando nossa possível paciência de se ser e, mesmo, de existir. Ao que se percebe o Hindu, em silenciosos sorrisos, os supera e os deixa à deriva.

O todo do “Hospital” reverbera esse mundo: simplicidade que se mostra - na estrutura física, no movimento dos que nele labutam e compartilham. Há, no centro do conjunto arquitetônico, um espaço livre com relva e algumas plantas e árvores. Esse ambiente livre se faz existir no mundo residencial indiano (para nele fluir o Prana: energia do Sol, dos ventos, das chuvas) ... algo que está mesmo presente nas pequenas e carentes “casas” das camadas mais populares indianas.

Reflexões outras

Chegou o almoço, era já tarde, pois demoramos a chegar ao “Ashram”. Bandejão: lentilha como uma sopa, arroz, chapati (pão), beterraba (esta cozida com molho de pimenta). Novamente, simplicidade e algo naturalmente e intuitivamente construído. 

Chega a médica... novamente a contaminação ocidental, pois seria “Mestra”, mas o Hindu não se intimida em estar no seu mundo e navegar em outro, naturalmente se constrói em realidades díspares.

Como a tradição hindu, em que persevera um modo de ser amoroso, simples, natural, ingênuo e, mesmo, puro, Dra. Subadra adentra-se no quarto, senta-se na cadeira e me observa punho e outros toques. Anota minhas dificuldades e sempre em sorriso diz que vai definir minhas atividades durante minha estadia. Em nenhum momento, cria um clima de aqui eu estou (a médica) e aí você está (o paciente). Há interação, afetividade e o resultado é uma amigável e autêntica e verdadeira integração. Nenhum discurso: “Você está em um lugar especial e será tratado especialmente e está consumindo um ótimo produto... você vai-se curar...” verdadeiramente não se estabelece distâncias...

A Mestra afirma: “Aconselho apenas uma massagem mais leve hoje e amanhã uma rotina mais intensa, mas se você quiser começar hoje mesmo algo mais intenso...” Bom ... ponderações não impositivas... e sigo o conselho...

A massagem mais leve

Dois rapazes jovens veem ao meu quarto, trazendo uma cadeira de rodas. Nela levam-me para a sala de massagem.

Aos dois jovens junta-se um terceiro e, com poucas palavras, estabelecem comigo uma comunicação, mais por gestos e sorrisos do que por outra qualquer forma de interação.

Maca de madeira, óleo aquecido e eu despido literalmente e também metaforicamente, pois um deles havia dito: “Solte sua mente”. Disse algo assim, que poderia ser traduzido como: “Não racionalize, não crie expectativas e vivencie o processo de forma simples e natural”.

Percebo neles o que já descrevi sobre os Hindus anteriormente: Há uma hierarquia estabelecida de forma natural, prevalecendo uma aceitação kármica e dhármica. O mais velho dá os direcionamentos sem quase se expressar, os outros o seguem e cumprem suas tarefas. Mãos ágeis, lépidas e afetivas tocam espiritualmente minha pele, acariciando, mesmo, meu ser. Despido de minhas roupagens externas, que, mesmo buscando a simplicidade, carrego comigo, vejo-me ali, junto à madeira e ao quente óleo, em profundo contato com o que mais me mantém vivo: minha existência kármica, construída nessa vida e, mesmo, em outras. E aquelas mãos e aqueles seres, doando sua simplicidade e sua autenticidade e honestidade, capturam esse meu estado e me embalam para algo perdido no tempo de minha construção: a pureza infantil de ser apenas um corpo nu, porém, completamente pleno.

O tato e o contato, o toque e a troca... e o mundo do Ayurveda em Abhyanga se construindo ... em harmonia, sintonia, sinfonia. Aquili, Gitu e Aquilishri transformando-me em pura alegria e energia e, creio, que de mim vibrações afetivas em plena simplicidade receberam... troca e toque... reciprocidades infinitas, certamente de encontros pretéritos... 

No mundo Shirodhara

No segundo dia, inicio tomando Ghee (a manteiga clarificada e espiritual – isto no ideário hindu), Ghee dissolvida em água morna, objetivando, por meio dessa doação da Vaca Sagrada, absorver as toxinas e eliminá-las por meio da urina e das fezes.

A seguir: Massagem Shirodhara. Novamente há um mergulho em óleo quente, em maca de madeira, mas, dessa vez, com muito maior quantidade e quentura do óleo, reforçado com panos nele embebidos e enrolados em certas regiões mármicas (regiões do corpo físico mais encouraçadas). 

O calor é intenso, as sensações são exacerbadas e o contato das oito mãos (nessa sessão foram quatro terapeutas) em meu corpo me obriga a me sentir e a mergulhar não apenas no óleo imensamente aquecido, mas em mim mesmo: fantasmas e visualizações, fruições e sensações, medos e fantasias, desconfortos e confortos, dores e prazeres se misturam e se esvaem em uma conexão com variadas viagens existenciais. O mundo gira sobre mim e eu sobre ele. Tenho medo de me desesperar e não conseguir fazer aquela passagem de imensa conexão com a vida. Remeti-me para a mesma sensação que havia vivenciado anos atrás em uma imersão no fantástico e auspicioso mundo espiritual presente em Varanasi (cidade mais sagrada da Índia), ao sentir a vida se diluindo em fumaças e se espraiando nas cremações à beira do Ganga. Chakras, Nadis, Kundalini, em vórtices energéticos, potencializam o fogo serpentino. Dharma pessoal e Dharma Universal direcionando futuras missões.

Shirodhara à espera dos buscadores materializa sua força, energia e poder. Os veículos para sua expressão, com mãos desprendidas, diariamente, no Arya Vaidya, em Kochin, Kerala, Índia, vivificam o eterno reino do Samadhi (iluminação).

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