A última cartada

Ando na minha melhor fase, achei alguém, estou de bem com a vida. E você?


Acordou com um estranho vazio no peito, os pés gelados, as mãos suando. Algo estava errado. Checou o coração, sentiu-o inquieto, mas batendo. Respirou fundo. Feito uma bomba de bola de soprar, o pulmão enviou uma camada de ar puro para todo o corpo. Mas faltava alguma coisa e Laura Maria não conseguia definir o que fosse. Pressentimento de alguma futura má notícia, remorso de alguma injustiça cometida no passado? Conferiu a bolsa: algumas cédulas insignificantes, umas moedas esmirradas. Contou a coleção de cartões de crédito, prontos para futuros débitos - todos lá.

*

No entanto, o sentimento de falta, o frio na boca do estômago, persistem. Tomou o café matinal, com poucas vitaminas e escassas proteínas, mas enganaram o estômago. Vestiu-se sem pressa e foi para o trabalho, onde depara-se com as enfadonhas tarefas de sempre, pelo menos nada que exigisse cursos e treinamentos, ou grandes esforços de adaptação. Talvez a esperasse um sumário e-mail informando o cancelamento da matrícula na academia,  por falta de dedicação e excesso de ausências, ou talvez um sumaríssimo fim do contrato de trabalho entre ela, minúscula pessoa física, e a poderosa pessoa jurídica que lhe garantia o salário mensal.

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Mas nada aconteceu, e o dia correu como todos os anteriores - não foi mandada embora, não sofreu um ataque cardíaco fulminante, não foi assaltada no metrô. Então o que está errado? Por que esse sentimento de ausência, de falta de alguma coisa que não consegue identificar? Chegando em casa, antes mesmo do lanche liga pra mãe: Tá tudo bem com todos? Dona Alci leva um susto, Aqui tudo bem, e você? Há tanto tempo não dá notícias nem aparece que alguma coisa deve estar errada. Ficou doente ou precisa de cash? Explica que não, a saúde está ótima, o emprego está garantido, só sentiu saudades, anda muito ocupada, mas tá sempre pensando em todos. Amém! Liga pros amigos mais chegados, até pro Ex, de quem não tem notícias há séculos.

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Doente, eu? Ando na minha melhor fase, achei alguém, estou feliz e de bem com a vida. E você?

Disse que nunca esteve melhor, mentiu que estava com outro, talvez ele tivesse mentido também. Mais alguns telefonemas, nada errado ou estranho acontecendo com ninguém conhecido. Preparou a salada, dois ovos mexidos com queijo e presunto, arrematou com o último  tomate ainda em boas condições, e foi pra poltrona assistir o último capítulo de seu seriado preferido: A última cartada, tão ansiosamente aguardada. Só então percebeu o que estava errado… esqueceu de chamar o sujeito do Netflix pra consertar a antena.
 

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