Sonho do asfalto vira pesadelo em Itaúnas

Além de aterrar córregos, obras provocam supressão de vegetação e não cumprem condicionantes

O tão sonhado asfaltamento da estrada que liga a vila de Itaúnas à sede de Conceição da Barra, no norte do Estado, tem se tornado um pesadelo para moradores e para a biodiversidade do Parque Estadual homônimo (PEI).

Além do aterramento injustificável do querido Córrego da Velha Antonia, como já denunciado em Século Diário, as obras prosseguem suprimindo vegetação, sem resgate de fauna, dentro da área do Parque, além de não cuidar do trânsito de pedestres e ciclistas – a obra acontece na região de maior circulação de transeuntes, sem qualquer espaço reservados para o fluxo – e não realizar qualquer ação de comunicação social com a comunidade local, entre outras condicionantes socioambientais previstas no licenciamento ambiental que, até onde os moradores puderam saber, encontra-se vencido, aguardando renovação do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema).

“Como mal apresentaram o projeto [da obra] pra nós, não dá pra saber direito”, conta Marcia Lederman, presidente da ONG Sociedade de Amigos Por Itaúnas (Sapi). O não atendimento às condicionantes, no entanto, é explícito.

O depósito das máquinas fica no bairro de Santana, provocando trânsito intenso de caminhões basculantes, que atravessam áreas residenciais e de agricultura familiar, como o bairro Maria Tercília, a região do hotel, o quilombo do Angelim e a área de ocupação do antigo eucaliptal da Aracruz Celulose (Fibria/Suzano). “Em alta velocidade”, destaca a presidente da Sapi.

Até quando irão os trabalhos? Ninguém na comunidade sabe, pois o programa de comunicação social, que por lei deveria ter sido iniciado antes das obras, não aconteceu.

“Eu vejo negligência do Parque Estadual de Itaúnas. Quando a gente conversa com o Parque, eles dizem que o assunto é de responsabilidade do setor de licenciamento do Iema. Mas não acionam o Iema”, relata a ambientalista.

O manilhamento do Córrego da Velha Antonia, que tanto sofrimento tem causado aos moradores, principalmente aos nativos, que possuem uma história de usufruto e afeto com o córrego, é um dos capítulos que mais mostram a negligência característica da triste história que tem sido escrita sobre a estrada.

A reivindicação é por uma ponte e não aterramento. Marcia conta que sabe-se da previsão de construção de cinco pontes, dentro do projeto, mas, nenhuma delas, pelo visto, sobre o córrego, que poderia fazer um belo portal na entrada do Parque. “Você chegar no parque e encontrar gente tomando banho, pescando no córrego”, projeta Marcia.

“Não somos contra a estrada. O que queremos é respeito na execução da obra, cumprimento de condicionantes e cuidado com a natureza. Porque essa obra conecta uma estrada a um parque. Se não está havendo cuidado agora, quando é que vai ter?”, questiona.

Ordenamento

Além das ações elementares já citadas, como programa de comunicação social, proteção da flora e dos recursos hídricos, duas condicionantes solicitadas pela sociedade civil organizada também não dão sinais de que serão implementados: a atualização do Plano de Ordenamento da Vila de Itaúnas (Povi) e do Plano de Uso Público do Parque.

“Não temos nenhuma garantia que iremos ordenar a recepção dos visitantes, o crescimento da vila, o cuidado com nosso patrimônio. As dunas estão tombadas pelo Conselho Estadual de Cultura”, ressalta.

Uma carta com o pedido das duas condicionantes foi enviada ao Iema há mais de um ano, em fevereiro de 2018. “Nunca tivemos resposta”, diz Marcia. “Está em análise pelo Iema”, ironiza, assim como em análise também está a renovação do licenciamento da obra, desde pelo menos agosto do ano passado. “O licenciamento tem renovação automática. E ninguém explica nada pra comunidade”, protesta.

Paraíso perdido?

Nas ruas de Itaúnas, moradores mais antigos e nativos revelam em anonimato, com receio de represálias do poder público municipal e mesmo de moradores que querem o asfalto “a qualquer custo”, que temem pela descaracterização completa do paraíso onde nasceram e construíram suas vidas ao lado de um santuário da natureza.

“O progresso vai acabar agredindo tudo aqui, até o turismo que traz o sustento pra gente. Não é que vai deixar de ter turismo, pode até triplicar, mas não vai ter a qualificação que tem hoje. Hoje a gente tem um turista qualificado, educado, que se vê um lixo no chão, mesmo se não foi ele que jogou, ele pega e joga no latão. E o asfalto, pelo menos em lugares vizinhos que a gente vê, traz o turista mal educado, não quer saber se está num chiqueiro ou se num ambiente limpo. O meu medo é depois do asfalto não ter um turismo qualificado. Se o inicio do progresso tá sendo essa devastação, é sinal que Itaúnas vai acabar”, disse em lamento, um nativo.

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4 Comentários
  • Éolo Mourão , domingo, 14 de abril de 2019

    Como morador da Vila digo que o "pesadelo" não é da comunidade não. Tem afirmações nessa matéria, produzidas por ativistas, que querem sejam expressão da maioria da comunidade, mas não é a realidade. Tão forçando bem...

  • Simone Batista , segunda, 15 de abril de 2019

    Para melhorar a estrada, não é preciso destruir os córregos! Vamos cuidar do Córrego da Velha Antônia! E também de todos atravessados pela estrada!!!

  • ALEXANDRE BRAGA , segunda, 15 de abril de 2019

    Não é só um problema de preservar o meio ambiente, embora essa questão seja importante. O córrego é o lugar para onde corre a água que escoa de todo terreno vizinho à ele. Ao aterrá-lo, sem realizar uma drenagem correta, está se criando um risco para a própria construção e para os que vão circular nela. O que vai acontecer nas próximas épocas de chuva? Vai represar água ao lado da pista, já que não há mais escoamento pelo córrego? E se houver danos à pista, quem se responsabilizará e pagará por isso?

  • Éolo Mourão , terça, 16 de abril de 2019

    Alexandre Braga, se alguém lhe disse que náo haverá os manilhões para devida drenagem, esse alguém mentiu. Esse é o problema, o ativista induz as pessoas a erro descaradamente. Ninguém que é favorável ao asfalto é contra a preservação do meio ambiente, no entanto a minoria que é contrária ao asfalto ( no plebiscito 98% favorável, 1% contra e 1% abstenção) às vezes cria uma confusão e não assume que é contra. Não tem como fazer omelete sem quebrar os ovos. E não há problema em cobrar que a obra siga da melhor maneira, mas a maneira de expressar e levar as pessoas a terem entendimento que foge à verdade, como vc teve, é que é o problema, fica parecendo que o interesse é outro.

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