Referência em agroecologia na cidade, coletivo deixa área na Ufes

Coletivo Casa Verde fará último mutirão no antigo depósito de lixo que virou espaço de educação ambiental

Era agosto de 2015 quando o Coletivo Casa Verde, grupo autônomo organizado inicialmente a partir de estudantes de Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), ocupou o antigo Laboratório de Ecologia Terrestre, onde até os anos 90 se produziam mudas de árvores plantadas no campus universitário.

Abandonado há anos, o local de meio hectare às margens do manguezal e entre dois edifícios da Petrobras dentro de Ufes tinha virado depósito para os resíduos de jardinagem do campus. “Eram montanhas de matéria orgânica, porém misturadas com plástico, vidro e outros resíduos que vinham junto”, conta Alice Moura, uma das integrantes do Casa Verde. Com a devida filtragem e peneiração, o grupo tinha em mãos uma terra riquíssima involuntariamente disponibilizada para plantar.

A partir daí o coletivo de jovens se diversificou, incluindo estudantes de outros cursos e pessoas interessadas mas não necessariamente com vínculo com a Ufes. Foram transformando o espaço: leras para compostagem, produção intensa de mudas de árvores nativas e plantas alimentícias, criação de uma agrofloresta, horta, cultivo de plantas medicinais e plantas alimentícias não-convencionais (PANCs), limpeza do manguezal e construção de trilhas ecológicas, oficinas, mutirões, recepção de escolas e outros grupos para educação ambiental, tudo isso aconteceu ali ao longo dos últimos anos, tornando o espaço um dos principais pontos de referência para pensar e praticar agroecologia urbana no Espírito Santo.

Isso sem nunca perder o vínculo e o diálogo com o campo, por meio de participação em eventos como a Feira Capixaba da Reforma Agrária, indo apoiar mutirões e outros eventos nos territórios rurais e especialmente enviando mudas para reflorestamento, construção de agroflorestas ou outras atividades em comunidades indígenas e quilombolas, pequenos agricultores, assentamentos de reforma agrária e também em comunidades urbanas e proximidades de parques naturais.

O grupo se manteve sempre de forma autônoma, sem vínculo institucional, mas fez uma ocupação pacífica e propositiva do local antes abandonado. “A gente ocupou e escreveu um documento avisando o que ia fazer ali. Fomos lá e começamos a fazer. Não tem que pedir não. Se alguém perguntasse, a gente explicava o que estava fazendo e convencia de que é uma boa causa. Foi sempre assim”, explica Lucas Sangi, um dos poucos remanescentes do grupo que participou do início da ocupação.

Acabaram recebendo autorização do professor responsável para permanecerem no local, numa relação sempre conflituosa, que culminou na saída do coletivo do espaço, que deve ser desocupado com um último mutirão nesta sexta-feira (5), a partir da 14h.

Retirada de materiais e equipamentos, preparação das últimas mudas e sua destinação para serem plantadas no próprio campus ou destinadas a projetos urbanos e rurais estão entre as atividades. A desocupação foi solicitada para janeiro, porém, sem recursos nem sinal do novo projeto que seria realizado no espaço ter início. O local voltaria a ficar abandonado?

Inicialmente convidado pelo professor para construir conjuntamente um projeto de extensão para funcionar no espaço, o Casa Verde apresentou uma proposta que acabou sendo modificada e descaracterizada pelo professor, desagradando o grupo, que foi convidado a se retirar. “A gente nunca pensou em se institucionalizar, sempre se viu como um movimento auto-organizado e independente, com a ideia de autonomia da comunidade, sem vínculo com nenhum órgão. O Coletivo Casa Verde nunca foi ‘da’ universidade, ele atua dentro dela mas não pertence a ela. Acabamos fazendo um papel de extensão que ela nunca cumpriu”, diz Larissa Loyola.

Por uma série de fatores, a saída foi aceita sem muita resistência. Como é efêmera a passagem pela universidade, dos dez integrantes do coletivo ,apenas três mantém vínculo como estudantes da Ufes, os outros foram seguindo caminhos profissionais e tornando mais difícil a convivência e permanência no local, que exige cuidado diário para a sobrevivência das plantas. “Não conseguimos fazer uma transição para manter novos estudantes ali”, diz Lucas em autocrítica. O grupo que já funcionou com vínculos muito abertos, acabou optando por uma construção com membros mais orgânicos, para evitar que se repetissem más experiências com pessoas descomprometidas ou com posturas inadequadas ao propósito do coletivo.

Mas ao longo dos mais de três anos e meio de ação no local ocupado, os membros orgânicos e colaboradores esporádicos do coletivo adquiriram experiência e conhecimento muito úteis para serem levados para fora da “bolha” da universidade. “É triste perder um espaço destinado a tantas atividades, mas vamos ajudar a criar e fortalecer outros espaços assim dentro da cidade”, considera Lucas Sangi.

O Coletivo Casa Verde participa das primeiras conversa de articulação entre grupos de agroecologia urbana na Grande Vitória e também planeja realizar oficinas, cursos e outras formas de capacitação em torno da questão, que parece ser tendência crescente não só no Brasil mas ao redor do mundo.

Larissa lembra que muitas pessoas da cidade puderam ter um contato primário com a natureza e a agricultura no local, com plantio, capina e outras atividades sempre de forma coletiva. “A maior expectativa do grupo agora acredito que seja conseguir levar essa proposta da agroecologia para fora da universidade. Nesse sentido, o período que a gente ficou ali serviu para adquirir uma carga muito grande de conhecimentos. Tá na hora do grupo expandir seus horizontes e a perspectiva é conseguir aplicar esses conhecimentos fora da universidade”, diz Alice Moura.

Em algo fez lembrar o conceito de Zonas Autônomas Temporárias (TAZ, pela sigla em inglês), do escritor libertário Hakim Bey, com a proposta de construção de espaços sem hierarquias para realização de atividades comuns. Como sugere o nome, zonas autônomas, ocultas às instituições e seus instrumentos de controle, e temporárias, que enquanto durem gerem convivência e elevem a consciência, mas que ao serem notada pelo Estado, que logo buscará sua destruição, elas se dissolvem e ressurgem em outros lugares. Pois muda-se o espaço, mas permanece a consciência.

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