Rebio Sooretama é uma das 67 unidades de conservação que Bolsonaro quer reduzir

Medida contraria pleito de pesquisadores por uma estrada-parque no trecho da BR-101 que corta a Rebio

A Reserva Biológica (Rebio) de Sooretama e a Floresta Nacional (Flona) dos Goytacazes, localizadas em Linhares e Sooretama, no norte do Espírito Santo, e administradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), são as duas unidades de conservação capixabas incluídas na lista de 67 UCs que o governo federal pretende reduzir de tamanho alegando eliminar “interferências” com estruturas existentes e dar “segurança jurídica” para os empreendimentos de transporte, como estradas federais, ferrovias, portos e aeroportos. 

Conforme reportagem publicada nessa quarta-feira (12) pelo Estadão, um projeto de lei nesse sentido está sendo elaborado pelo Ministério de Infraestrutura, com apoio da pasta do Meio Ambiente, e deve ser enviado nas próximas semanas ao Congresso Nacional.

A proposta de Bolsonaro contraria frontalmente a reivindicação de pesquisadores e instituições envolvidas na proteção dos remanescentes florestais da região, que defendem o desvio da BR-101 no trecho de 17 km que corta a Rebio - do km 107 ao km 124 da rodovia (do córrego Cupido no distrito de Juerana até próximo ao trevo, em Sooretama, no sentido de norte para sul) – e sua transformação em uma unidade de conservação estadual, na categoria Estrada-parque, com 76 hectares, que seria estratégica para fomentar o desenvolvimento sustentável da região.

O desvio, explica o biólogo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Aureo Banhos, poderia ser pelo noroeste, podendo ou não incluir desviar de Linhares e São Mateus, ou somente Sooretama.

Esse novo traçado poderia ajudar a desenvolver essa região pobre e degradada do Estado e aproximaria a BR-101 da BR-116, favorecendo o escoamento da produção agrícola local. E dependendo de como for feito, ainda “reduziria a distância da BR-101 no ES, especificamente entre João Neiva e Pedro Canário”, complementa.

Por outro lado, “a retirada de uma rodovia interestadual do porte da BR-101 dentro da área do Mosaico de UCs da Foz do Rio Doce ajudaria a conferir uma forma de desenvolvimento mais sustentável para a região baixa da Bacia do Rio Doce, preservando suas características e serviços ambientais importantes em nível regional e mundial, aliando turismo, agricultura e conservação”, explana.

O Mosaico a que o professor se refere é formado ainda pela Flona de Goytacazes – que também está na mira dos Ministérios para sofrer redução de tamanho – pela Rebio de Comboios, pela Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) do Degredo e pelas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) Restinga de Aracruz, Recanto das Antas e Mutum Preto.

Maciço florestal

Essa importante região florestal conta ainda com a Reserva Natural da Vale, com 23 mil hectares. Apesar de não ser uma UC, é uma área protegida pela Lei da Mata Atlântica (Lei Nº 11.428, de 22 de dezembro de 2006) e pelo Código Florestal (Lei Nº 12.651, de 25 de maio de 2012), e está dentro da Zona de Amortecimento (ZA) da Rebio de Sooretama. Somadas, as duas Reservas, que são contíguas, integram o maior remanescente de Floresta de Tabuleiro da Mata Atlântica do país.

Quando somada ainda às RPPNs Recanto das Antas e Mutum Preto, vê-se que a Rebio de Sooretama compõe um maciço de 53 mil hectares de floresta contínua, que configura uma das principais áreas do Corredor Central da Mata Atlântica (CCMA), que envolve o sul da Bahia e todo o Espírito Santo.

Em artigo publicado no jornal O Eco em setembro de 2017, Aureo Banhos destaca que o Corredor Central da Mata Atlântica é uma das unidades mais ricas em biodiversidade do mundo e uma das poucas que ainda possui exemplares de grandes animais na Mata Atlântica, como a onça-pintada, a anta, o tatu-canastra e o gavião-real. Além de constar “nos mapas de áreas verdes que prestam relevantes serviços ecológicos em nível regional e global, como na manutenção do clima e da água”.

Maior e mais antiga

A Rebio Sooretama – do tupi-guarani ‘terra dos animais da floresta’ – é a mais antiga área protegida no Espírito Santo, criada originalmente em 1943 com o nome de Parque de Reserva, Refúgio e Criação de Animais Silvestres Sooretama, e recebendo, em 1981, a denominação atual, já com a área atual. É também a maior UC de proteção integral do Estado.

Sua criação teve a contribuição de vários importantes pesquisadores brasileiros, entre eles os naturalistas Álvaro Aguirre e Augusto Ruschi, este, Patrono da Ecologia do Brasil, atuou na elaboração do Plano de Manejo da reserva.

No mesmo artigo de O Eco, Aureo Banhos esclarece que o trecho da BR-101 que atravessa o interior da reserva foi construído no final da década de 1960, durante o governo militar no Brasil, “à revelia da legislação ambiental, por ser uma Área Protegida pelo Código Florestal da época”.

Desde sua inauguração, informa, “essa rodovia promove a matança de animais por atropelamento e isola as populações de animais e plantas silvestres. Além disso, a BR-101, uma das mais movimentadas rodovias do país, é um vetor de poluição e pressão antrópica sobre a Rebio de Sooretama e sua Zona de Amortecimento (ZA), gerando vários conflitos ambientais no uso e ocupação da terra e das águas na região”.

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1 Comentários
  • Guilherme Cerbella , quinta, 13 de junho de 2019

    Hoje restam menos de 250 onças pintadas em toda a Mata Atlântica... esse mosaico é um dos poucos que ainda pode ajudar a salvar essa espécie, pois ainda possui onças... a construção de contorno à BR 101 é de longe a única medida acertada! Toda redução nas reservas da região aceleraria o processo de extinção das onças e de outras espécies, também pelo corte nos corredores ecológicos que as ligam. Por isso qualquer redução desse tipo em reservas é um absurdo que só pode ser atribuído à ganância especista e antropocêntrica de muitos da nossa espécie!

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