Pelo menos 70 policiais militares tentaram suicídio nos últimos dois anos no ES

Propensos a problemas de saúde mental já somam 93,64%. Situação se agravou depois do movimento de 2017

No mês em que as atenções da sociedade estão voltadas para a prevenção do suicídio, no chamado Setembro Amarelo, há uma categoria que vem sofrendo, ao longo dos anos e em silêncio, com o problema: os policiais. Dados do 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados na semana passada, indicam que 104 agentes tiraram a própria vida no País em 2018, taxa que é 42,5% maior que a do ano anterior, uma média de dois policiais mortos a cada semana, e que é superior aos que morreram em confrontos no mesmo ano: 87 no total.  

O Espírito Santo não é exceção e tem um agravante: os casos de suicídio de policiais militares, especificamente, cresceram após fevereiro de 2017, quando houve o movimento paredista de 21 dias da categoria. As estimativas são de 70 tentativas nos últimos dois anos, de acordo com o presidente da Associação de Cabos e Soldados do Espírito Santo (ACS), cabo Eugênio Silote.

Após a greve, o próprio governo do Estado, na figura do ex-governador Paulo Hartung, iniciou uma série de punições e desligamentos que instauraram um clima de terror na tropa. No próprio ano de 2017, há informações extra oficiais que indicam, pelo menos, cinco suicídios, que, por sua vez, não constam no Anuário por não terem sido notificados pelo Estado. 

Cabo Eugênio Silote explica que os dados reais de suicídio de militares são uma verdadeira caixa-preta e o assunto é tratado ainda como tabu pela corporação e, muitas vezes, pelos próprios militares, que carregam consigo a responsabilidade de parecer sempre fortes e não imunes às doenças psicossomáticas e aos distúrbios psicológicos e psiquiátricos. “Desde 2017 para cá, os casos de suicídios de PMS no Espírito Santo cresceram assustadoramente. Antes, tínhamos poucos casos. Mas quando vemos o cenário nacional também não é diferente, estamos diante de uma epidemia de suicídios de policiais nos últimos três anos”, explicou. 

Pesquisa constata uma tropa doente 

Neste ano, a Associação realizou uma pesquisa inédita sobre a saúde mental dos policiais e bombeiros capixabas; estudo de campo realizado com 550 PMs em 120 batalhões e companhias sediadas no Estado com o objetivo de mostrar a realidade dos profissionais de segurança pública ligados a Polícia Militar e ao Corpo de Bombeiro Militar. O estudo constatou que 68,18% dos PMs disseram que o seu trabalho causou conflitos de ordem familiar; 26% já recorreram a remédios controlados para reduzir o estresse do trabalho, 40,18% apresentam problemas de saúde; e 93,64% afirmaram que, por causa da profissão, têm maior probabilidade em adquirir problemas de saúde mental. 

Para cabo Eugênio Silote, não há dúvidas de que a tropa de policiais militares e bombeiros necessita de cuidados especiais. Para tanto, a pesquisa será formalmente entregue ao comando da PM e do Corpo de Bombeiros. Segundo ele, os problemas afetam desde os soldados até os oficiais da reserva, não escolhendo patente, idade ou sexo. A própria associação tem procurado ajudar seus filiados com apoio de profissionais, como psicólogo e assistente social. 

A assistente social da ACS, Luana Torres Cabral, aponta que “o acesso aos dados referentes à saúde mental no ambiente militar são extremamente limitados, não pela ausência e sim pela resistência das instituições governamentais em disponibilizar essas estatísticas ao público geral e também aos próprios profissionais que atuam nesta causa dentro das entidades representativas”. Para a assistente social, a depressão e outras doenças relacionadas à saúde mental ocasionalmente podem estar atreladas ao suicídio, o que exige cuidado. “Diante do aumento significativo desse tipo de problema, não podemos continuar ignorando o fato”, explicou Luana Cabral.

Os quadros apresentados pelos PMs vão desde depressão, alcoolismo e uso de outras drogas, como a cocaína. As condições de trabalho, o excesso de carga horária nos plantões, os salários defasados, entre outros fatores, podem estar entre as causas. 

Alguns casos 

Um dos casos mais dramáticos, em 2017, foi a morte de uma cabo. Considerada uma militar competente, diligente, estudiosa, a cabo estava há cinco dias da conclusão do curso de Química na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Como retaliação à sua participação no movimento da categoria,  ela foi transferida para o interior, sendo obrigada a deixar sua unidade, que “amava”. Só com muita negociação com o governo, a categoria conseguiu trazê-la de volta para a Grande Vitória. Mas o seu emocional já estava  comprometido: Ela se matou. 

Também é relatado que no dia 1º de novembro de 2017 ocorreu o caso de um soldado que estava na 13ª Cia Independente. Ele ligou para o Ciodes, transtornado, e acabou atirando contra sua cabeça. Dois dias antes, um soldado do 4º BPM visivelmente transtornado invadiu um hospital no Ibes, em Vila Velha e, com arma em punho, tentou se matar, mas foi contido. No final de outubro e início de novembro de 2017, em apenas três dias, dois militares atentaram contra a própria vida. 

Doentes de fora das promoções

Neste mês, policiais militares que tiveram seus nomes excluídos do quadro de acesso a promoções protocolaram, no último dia 30 de agosto, uma representação no Ministério Público do Espírito Santo (MPES) em que denunciam irregularidades no processo e pedem intervenção do órgão ministerial. O Boletim Especial do Comando Geral, de número 20, publicado no último dia 7, confirmou a exclusão de 60 militares, todos soldados que seriam promovidos a cabo, que estavam de licença médica no final do ano de 2018. 
 
A representação, protocolada por representantes legais dos militares, foi feita contra os oficiais que compõem a Comissão de Promoção de Praças (CPP), composta pelo tenente coronel Pablo Couto Ferreira (presidente) e pelos membros capitães Izaias Pereira Junior e Dilson Ravani Junior, os primeiros tenente Saulo de Carvalho Relo, Cyndi Hautequest Gonçalves do Nascimento e pelo segundo tenente Heraclito Alves Meirelles (secretário). Também foi representado o comandante-geral da PMES, Moacir Leonardo Vieira Barreto Mendonça, que, segundo o documento enviado ao MPES, com a publicação do ato administrativo agiu em desacordo com o disposto na legislação estadual e portarias da própria instituição.

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