Os palhaços do Ri(s)o Doce

Expedição dos Palhaços Sem Fronteiras trabalha riso como forma de regeneração em comunidades atingidas

Fotos: Ricardo Avellar

Carmen Serafina, Abigail, Donatella, Jean Pierre, Gambito, Malagueta. Em comum, o nariz vermelho, a cara pintada, roupas espalhafatosas e aquele ar engraçado que desperta um certo magnetismo que atrai as crianças. Pela terceira vez, agora com a trupe completa e reforço do fotógrafo e malabarista Ricardo Avellar (Clowndio), o grupo de palhaços da Cia Cromossomos, de São Paulo, pegou a estrada e desceu o Rio Doce para realizar atividades feitas em parceria com a ONG Palhaços Sem Fronteiras.

O nome sugestivo do projeto é Riso Doce. Nas últimas semanas foram 11 dias no Espírito Santo com uma agenda diária de oficinas e apresentações para as comunidades ribeirinhas afetadas pelo crime socioambiental da Samarco/Vale-BHP.

Em 2016, meses após o rompimento da barragem em Mariana (MG) e a chegada dos rejeitos tóxicos à foz do Rio Doce, o grupo veio pela primeira vez ao Espírito Santo com quatro de seus palhaços, conectados com ativistas locais a partir de uma amiga paulista residente na vila de Regência, em Linhares, norte do Estado. "Foi um projeto muito potente para todos nós. Muito difícil, muito forte. Afeta a sociedade de diferentes formas, cada local sentindo o impacto dessa lama. Foi muito forte e sentimos necessidade de voltar", conta Arthur Toyoshima, o palhaço Jean Pierre.

Vieram em 2016 com recursos levantados por meio de um sarau beneficente que realizaram em São Paulo. No ano seguinte, fizeram um fundo de reserva com 10% dos ingressos dos espetáculos ao longo do ano para conseguir financiar a viagem. Em 2019, conseguiram recursos por meio de um edital da Fundação Nacional das Artes (Funarte).

O itinerário deste ano incluiu as comunidades de Mascarenhas e Maria Ortiz (Baixo Guandú), Barbados (Colatina), aldeia indígena de Comboios (Aracruz), Areal, Regência e Povoação (Linhares). A última apresentação da temporada foi nesta segunda-feira, iniciando o retorno a São Paulo na terça. Em cada comunidade uma situação: a praça da igreja, um bar, a escola, um quintal e até as margens da linha férrea são locais em que o grupo instala sua pequena estrutura cenográfica para apresentar esquetes que mudam a cada visita.

"Vir para cá é muito importante para nós como artistas também. Porque nos alimenta, alimenta nossa criação. A cultura também tem o papel de contar e relembrar a história, não deixar que a memória seja apagada. A gente decide voltar porque acredita num trabalho que tem continuidade, aprofundamento nas relações, para a gente se fortalecer", relata Tamy Dias, a palhaça Malagueta.

A artista Tejas, que interpreta Carmen Serafina nas apresentações, diz que mesmo de longe, o grupo mantém contato com pessoas das comunidades para saber como as coisas estão caminhando. E a cada reencontro presencial, se fortalece a relação. Uma das maiores surpresas ao chegar de volta é com as crianças, as maiores fãs do grupo, que crescem de um ano por outro, mas lembram e interagem com os palhaços. "Na segunda vez que viemos, um menino olhava para a gente e cantava uma música que a gente cantou no ano anterior", relata.

Também reencontram o acolhimento das comunidades locais que os recebem em suas casas, permitindo estreitar os laços e conhecer de perto a realidade nas comunidades. "Convivemos com um pescador que não pode mais trabalhar. Ele sempre ri, mas vemos que ali tem um pesar. Ouvimos depoimentos, não só sobre a parte financeira mas sobre como a vida mudou, a diversão, o lazer, a pescar, o nadar no rio”.

É assim que eles buscam usar a arte não como um mero instrumento de entretenimento, mas que contribua para a transformação.  "Em contato com essas histórias vemos as perdas, mas também percebemos o caminho que as pessoas fazem para se regenerar e ter força. Com a palhaçaria a gente traz a memória, lembra da história para não esquecer que foi um crime, e também fala que juntos podemos nos regenerar. A gente pode rir, respirar, tomar fôlego e ir juntos lutar, se recompor na medida do possível para seguir a vida, sem se desengajar da luta", diz Tejas.

Uma história marcante, contada por Arthur em vídeo, acontece em Maria Ortiz, quando nas duas primeiras passagens o grupo se encontrou com um homem alcoolizado, que buscava chamar atenção, um pescador local que entrou em depressão e encontrou o álcool após o crime ambiental impossibilitar seu modo de vida, de sustento e de lazer junto ao rio. Ao final do espetáculo, o homem ébrio tomou a palavra e fez um discurso que calou fundo para os artista e público presente. Na última semana, reencontraram o pescador sóbrio e tiveram uma boa prosa.

"Mesmo em condições extremas e complexas, as pessoas e o rio estão tentando se regenerar pouco a pouco", considera Arthur.

Quem são os Palhaços Sem Fronteiras?

Além do projeto Riso Doce, da Cia Cromossomos, outro grupo ligado ao Palhaços Sem Fronteiras, o Instituto Hahaha, está atuando com vítimas das barragens da Vale, com o Projeto Brumadinho, em Minas Gerais. Duas iniciativas que trabalham com temas parecidos como o impacto da mineração e as águas.

A organização internacional Palhaços Sem Fronteiras surgiu há mais de 20 anos, quando artistas espanhóis foram atuar junto à infância durante a Guerra de Kossovo. Logo o projeto foi se expandiu, estando presente em 15 países e servindo de guarda-chuva para projetos e grupos que buscam trabalhar a palhaçaria e a arte circense em áreas de conflitos, desastres naturais ou crimes ambientais, especialmente onde haja crianças em situação de vulnerabilidade social.

A Cia Cromossomos, que surge em 2013 a partir de um grupo de palhaços brasileiros e estrangeiros que estudavam em Barcelona, na Espanha, inicia sua atividade em parceria com Palhaços Sem Fronteiras com atividades num campo de refugiados em região da Argélia em torno do chamado Saara Ocidental, zona conflitiva entre militares e guerrilheiros que lutam por independência.

Estabelecida no Brasil desde 2015, já se apresentou em diversos lugares, desde festivais, teatros e bibliotecas até ocupações, assentamentos e as comunidades ribeirinhas capixabas.

Honrando a máxima cantada por Milton Nascimento: "Com a roupa encharcada, a alma repleta de chão. Todo artista tem de ir aonde o povo está".

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