Novo disco do Dead Fish é um tapa na cara de Bolsonaro e seus asseclas

Rodrigo Lima, vocalista da banda capixaba que é referência no hardcore nacional, fala do álbum Ponto Cego

No caminho do aeroporto para vir de São Paulo a Vitória na última sexta-feira (14), os integrantes do grupo de hardcore Dead Fish tiveram que desviar de bloqueios na pista. Era dia de greve geral, mas eles iam trabalhar. "Me sinto um grande pelego. Podia ter ficado naquele piquete e não fazer show nenhum hoje", diz o vocalista Rodrigo Lima, numa cafeteria em que nos encontramos em Vitória. Não consigo distinguir se está brincando ou se fala sério.

Foto: Leonardo Sá

Para o show gratuito que faria à noite em Vila Velha, ele diz ter chamado todos seus amigos capixabas a comparecer e reforçar o público, temendo que este fosse em grande parte "coxinha". "Mas o microfone será meu", diz. Abriu a apresentação dizendo: "Você que votou no Bolsonaro, você está errado!"

Para quem não conhece a cultura hardcore pode parecer um tanto estranho e agressivo um show como o do Dead Fish, banda surgida no Espírito Santo que se tornou um dos maiores expoentes do Brasil no gênero. No mosh, a roda punk, parte do público dança parecendo literalmente se agredir. Às vezes alguém cai no chão e os outros o levantam, um sapato é perdido e uma mão o suspende no ar até o dono aparecer. A todo momento alguém sobe no palco e pula, sendo segurado no alto pelo público como se nadasse sobre o mar de gente.

Logo no início deste show, jovens tomam o palco e estendem uma faixa com uma frase do hino A Internacional: "Paz entre nós, guerra aos senhores". O vocalista entrega o microfone a uma mulher na plateia, e logo outras sobem ao palco e se juntam, cantando juntas a música "Mulheres Negras". Uma bandeira do MST tremula entre o público. Em algum momento cabo e tecido se perdem no meio do povo mas voltam a se encontrar.

 

Foto: Facebook/ Dead Fish

Trata-se do primeiro show do Dead Fish no estado em que surgiu desde que foi lançado Ponto Cego, seu oitavo disco. O título do álbum não é o título de uma canção, mas uma palavra que aparece nas diversas músicas com diferentes sentidos. "O mais óbvio é o ponto cego do retrovisor, o cidadão médio que dá ré na garagem ralando o carro na pilastra, mostrando a cagada que ele faz diariamente. Mas tem muitas outras coisas". Fala que amigos ligados à academia o comentaram sobre teorizações falando do ponto cego presente na obra de intelectuais como Lacan e Foucault. Chegou a conversar sobre o termo com o poeta Augusto de Campos.

Formado em Direito na Ufes, Rodrigo se considera mais "da rua" do que acadêmico. A formação política em décadas na cena do punk rock não é nada desprezível. "A cena do punk e hardcore capixaba nos anos 90 foi a mais importante do Brasil. Era a mais legal, a mais dinâmica, a que mais tinha mulheres, mais tinha zines, discussão", lembra com certa nostalgia. Rodrigo Lima continua na cena, mas há 15 anos mora em São Paulo e lamenta de certa forma a desterritorialização do som da banda. Com várias mudanças na formação do grupo ao longo dos anos, ele é o único remanescente da formação original e único capixaba que permanece no Dead Fish.

Foto: Facebook/ Dead Fish

"Eu moro num bairro bem de classe média de São Paulo. Típico bairro de panelaço, de carros SUV, babá negra empurrando carrinho de criança branca, aquele sentimento do bandeirante presente". Esse local foi o pano de fundo da produção do novo disco, num momento de crescimento absurdo do conservadorismo no Brasil. O grupo sentia vontade de se expressar logo e não demorar para lançar novo trabalho após o disco Vitória (2015). "O punk é urgente. E esse disco mais ainda", diz o vocalista.

"Eu estava com muita raiva. Ainda sinto muita raiva desse estado das coisas no Brasil. Queria mandar todo mundo pra casa do caralho quando comecei a escrever o disco. Mas pensei: não pode ser ser assim". Resolveu então convidar Álvaro Dutra, amigo de décadas, para ajudar a pensar o conteúdo e a escrever as letras conjuntamente.

A primeira coisa que fizeram juntos não foi uma letra de música completa. Álvaro desenhou em seu caderno um prédio. Pediu a Rodrigo que olhasse ao redor. "Olha o que temos aqui envolta para trabalhar". Desenhou janelas, portão. Nelas imaginaram o cidadão médio, a classe média, o pensamento reacionário, a cultura do ódio que cospe diante da TV. O prédio típico do bairro em que o vocalista mora. Um retrato, uma pintura do aqui e agora, como expresso na música Janelas. "É isso que a gente vai trabalhar. A realidade posta na bolha. Da bolha pra dentro e da bolha pra fora. A gente da bolha pra dentro vai contar a história da bolha pra fora", diz Rodrigo reconstruindo o diálogo com o amigo e parceiro Álvaro.

A distopia que era mito

Fundamentada por debates mudos e evasivas

Foi endossada, foi eleita

A voz daqueles que só pensam em si

Pra defender o status quo

Que foi imposto

E governar pelo dinheiro

(Não Termina Assim - Dead Fish)

Faixa a faixa, Ponto Cego não conta uma história do início ao fim. A ordem das 14  músicas foi escolhida com base mais em questões melódicas do que nas letras. Rodrigo considera que o disco saiu no "timing certo" e que talvez não fizesse tanto barulho se fosse lançado antes das eleições.

Mas reclama que a primeira música de trabalho, Sangue Nas Mãos, está sendo censurada nas rádios. "Letras muito fortes para a classe média", afirma. A canção é direta, fala do golpe orquestrado, com o Supremo e com tudo. Da "cumplicidade das panelas", supostamente defensoras da moral, mas cúmplices com novas e velhas corrupções das elites brancas.

Uma das faixas mais ouvidas nos canais da banda é Messias, embora Rodrigo não considere a melhor delas. Atribui a audiência ao título, que traz o nome do meio do presidente da República, o ser mais odiado pelos progressistas brasileiros nos últimos tempos. As pessoas querem ver essa crítica direta. E o novo álbum do Dead Fish é um tapa na cara de Bolsonaro e seus asseclas.

Em meio à crise

Autoritário opressor

Vem pra contagiar

Sacramentada pós-verdade

Rebanho pronto pra aceitar

Criados pra matar

Aplaudindo o salvador

(Messias - Dead Fish)

A faixa bônus O Outro do Outro (conceito trazido do filósofo Jacques Derrida), uma espécie de "resumão do disco", segundo Rodrigo, foi escrita quando o vizinho de condomínio de Bolsonaro foi preso na Barra da Tijuca pelo assassinato de Marielle Franco, a poucas quadras de onde o grupo se encontrava gravando parte do disco.

O Ponto Cego do Dead Fish não poupa o comportamento da classe média que apoiou o atual presidente, com seu individualismo cego (que se encontra em faixas como Sombras da Caverna ou O Melhor em Um), carros de luxo (em SUV's Stupids Utility Vehicle), cães da moda (Pobres Cachorros) e as escadas e entradas de serviço de seus condomínios (Etiqueta Social).

Outra mira certeira que aparece nas letras do novo disco é no discurso liberal e políticas de austeridade, a doutrina de choque criticada no livro de Naomi Klein, que serviu de referência e deu nome a uma canção (Doutrina de Choque). "Não é nem mais neoliberalismo, nem neo-neoliberalismo. É capitalismo do desastre", afirma o letrista e vocalista, lembrando de crimes como o de Mariana e Brumadinho.

Abrindo espaço para o Chicago boy

Privatizar todas estatais

Favorecer os ricos às custas dos pobres

Eliminar programas sociais

Arma na mão pra garantir a paz

Do virtual ao institucional

Destruir para lucrar com a reconstrução

(Doutrina de Choque - Dead Fish)

Essa crítica segue em Apagão e Receita Para o Fracasso, esta última indicando como esse liberalismo é um caminho de destruição, não só política e econômica, mas também psicológica e social, até para a classe média, que alimenta o ódio, o medo e a frustração que compõem seu vazio existencial (como se vê em Descendo as escadas).

É aí que reside outro ponto cego da nossa história. Em seu retrovisor, as elites brasileira não conseguem enxergar o povo. Nesse sentido A Inevitável Mudança é uma faixa implacável. Toda esse ódio vomitado pelas classes dominados é uma resposta a transformações grandes e inexoráveis. Os negros, as mulheres, os LGBTI+, os oprimidos históricos, as classes populares estão aí falando por si próprios. Fechar os olhos e sonhar com o passado que não voltará pode ser mera ilusão, de uma vitória parcial personalizada pela figura de Bolsonaro na presidência. Como dizem: "Nenhum gay volta para o armário, nenhuma negro volta pra senzala, nenhuma mulher volta para a cozinha". Durmam com essa verdade, coxinhas!

Não Termina Assim é o título de outra faixa de Ponto Cego, que também aponta que o momento é difícil, mas ele não irá se perpetuar.

Estamos prontos pra lutar

E não termina assim, é só o começo

Não temos medo de enfrentar o que há por vir

Sem nos calar

Os dias de autoritarismo terão fim

(Não Termina Assim - Dead Fish)

No movimento punk, desistir nunca foi opção. E 28 anos depois de sua criação, o Dead Fish nunca se rendeu a amenizar o tom de suas músicas. Continua com os pés no punk: som pesado e a língua afiada.

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