Música, companheirismo e uma Kombi quebrada

Há meses em Vitória, Coletivo Luzes toca buscando fundos para consertar carro e seguir viagem pelo Brasil

Quem frequenta as feiras livres de Vitória pode já ter cruzado com essa galera nos últimos meses. O Coletivo Luzes, grupo brasiliense de artistas, chega com seus sete jovens integrantes trazendo instrumentos a tiracolo. Procuram um lugar, mais ou menos protegido do sol, onde a saída de carros não atrapalhe e ali mesmo começa seu som, autêntico, brasileiro, gostoso.

A passagem por Vitória, que faz parte de uma viagem em que os integrantes do grupo deixaram seus compromissos na capital do país para um tour musical pelo Brasil, acabou durando mais do que o esperado e rendendo frutos inesperados. Saindo do cerrado no dia 20 de dezembro do ano passado, cruzaram Minas Gerais até chegar ao Espírito Santo, com o objetivo estratégico de buscar equipamentos e gravar algum material na casa de Mauricio Corteletti, um capixaba integrante do grupo.

Entretanto, os planos acabaram sendo postergados por Odara, nome dado à Kombi que junto com um Fusca transporta a trupe. “A intenção era passar no máximo um mês em Vitória, mas Odara resolveu adoecer e os planos tomaram outro rumo”, brinca o piauiense Pedro Coelho, que além de violão e percussão, também é o motorista da van de saúde oscilante. Além de passarem natal e ano novo acampados no meio da estrada em Minas Gerais por conta dos problemas mecânicos, o Luzes chegou a Vitória epicamente, com Odara guinchada diretamente para o “hospital”, leia-se oficina mecânica. O desafio de arrecadar R$ 3 mil para a “cirurgia” da van fez com que a estadia no estado já dure três meses. 

“Mas como tudo isso faz parte da viagem, estamos aproveitando para fazermos de tudo e lidarmos com a situação”, explica Pedro. Cá entre nós, não é tão ruim estar no Espírito Santo. O grupo tem aproveitado para interagir com a cena local, ou melhor, “coligar”, como gosta de dizer Jean Guajajara, ou Guaja, indígena maranhense que é o carismático vocalista do grupo.

Ao iniciar a viagem, além de um capixaba, um maranhense e um piauiense, três brasilienses: Gabriel Nascimento, que toca violino e faz as vezes mecânico do grupo, Mariana Laurentino, na zabumba e preparação dos mais deliciosos quitutes do rolê, e Jean do Black, no violão e percussões. Pela lei natural dos encontros, essa galera se juntou na efervescente cena cultural do Recanto das Emas, na periferia de Brasília.

No Espírito Santo, o grupo ainda ganhou um novo integrante. Formado pela Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames), o trompetista Rodrigo Souza Nascimento havia deixado a carreira musical para estudar Economia, mas viu que não era o que queria. Decidiu empreender uma viagem de mochilão e bicicleta partindo de Vila Velha sem destino final. Mas a viagem não passou no segundo dia. Em Guarapari encontrou na praia o Coletivo Luzes com seus instrumentos e colou para fazer um som. Daí se juntou para passar o chapéu no Centro da cidade e foi ficando.

“Alinhamos a visão de mundo, o som. Era como ser eu mesmo mas com outra galera”, conta. Deu meia volta com sua bike e agora o plano é seguir com o grupo na Kombi rumo ao Maranhão, ponto máximo da viagem, e depois descer junto para Brasília, onde o coletivo pretende gravar suas primeiras canções em estúdio, com músicas que vêm sendo construídas ao longo da viagem. “A experiência e as dificuldades criam carga intelectual para compor, viver o mundo e ter uma mensagem para transmitir. Porque música não é só tocar, é ter uma vivência para passar”, explica o capixaba.

Enquanto Odara segue na UTI, a rotina do grupo costuma começar pela manhã pelas feiras livres, onde tocam de terça-feira a sexta-feira, com a capa do violão um ou chapéu servindo para os que quiserem colaborar financeiramente com o coletivo. Tocam em dois turnos. Depois de um intervalo e da segunda parte, no final da feira, fazem a “xepa”, pedindo aos feirantes doações de alimentos. Também tocam nos ônibus, dividindo o grupo em dois, e na noite em locais como a Rua Sete, no Centro, Rua da Lama, em Jardim da Penha, e Praça dos Namorados, na Praia do Canto, além de convites para tocar em eventos e centros culturais. Vez ou outra, alguém pode parar e se juntar. “Nosso som é colaborativo, se ver a gente tocando numa rua, numa esquina pode coligar que vai ter um caxixi, uma percussão pra tocar, um abraço, um sorriso”, diz Guaja.

Sobre o desafio de recuperar Odara e seguir o caminho rumo ao norte, o grupo já arrecadou cerca da metade do total mas conseguiu uma pessoa solidária para passar o resto no cartão de crédito enquanto o coletivo segue a viagem e busca arrecadar o resto com o suor de seu trabalho cultural. Mas ainda resta um tempo do grupo em terras capixabas. Tocando quase todo dia mas com uma agenda bastante dinâmica, a forma mais fácil de acompanhar o grupo e seus shows é pelo Instagram

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