Incêndio suspende aulas em escola de assentamento rural

Comunidade alertava Superintendência de Educação sobre perigo na rede elétrica desde 2016

Um incêndio destruiu, na manhã dessa terça-feira (4), parte do prédio da Escola Estadual de Ensino Fundamental Valdício Barbosa dos Santos, do assentamento homônimo, no distrito de Braço do Rio, em Conceição da Barra, norte do Estado, já próximo à divisa com a Bahia.


Parte dos documentos e equipamentos da escola foram queimados, assim como o teto, o forro de PVC e as paredes, deixando um rastro de destruição pelas salas, pátio e a comunidade. A escola, que possui 96 alunos matriculados, da pré-escola até o nono ano, em dois turnos, está com as aulas suspensas durante toda esta semana.

A comunidade escolar realizou uma audiência à tarde, juntamente com uma equipe da Superintendência Regional de Educação (SER) de São Mateus, quando foi anunciado que o Corpo de Bombeiros viria à escola nesta quarta-feira (5) e, na quinta-feira (6), uma equipe de engenharia e elétrica seria enviada pela Superintendência.

Na assembleia, as famílias rejeitaram a proposta de transferir os alunos para outra escola, enquanto os reparos devidos são feitos pelo Estado. “É preciso viabilizar todas as condições aqui dentro do assentamento. Levar pra fora abre um pretexto pra fechar a escola, como é de interesse do atual governo”, explica Adelso Rocha Lima, da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e ex-educador da escola.

“Ouvir uma proposta dessas é uma ofensa. O que a gente quer é que o Estado resolva o problema da eletricidade”, reafirma a coordenadora da escola, Ronimárcia Martins Lima.

Na próxima segunda-feira (10), as aulas serão retomadas, mesmo que em um lugar improvisado, segundo ficou acordado com todas as famílias. “Não vamos deixar as crianças desassistidas. E iremos repor todas as aulas”, informa. A comunidade escolar vinha alertando a Superintendência desde 2016 sobre os perigos na rede elétrica, mas os pedidos de reparação foram sumariamente ignorados.

Nos últimos dois meses, as comunicações se intensificaram, em virtude do agravamento dos problemas, com queima de geladeira, ventiladores e lâmpadas, e a piora nos choques sentidos pelos estudantes e funcionários ao tocarem a parte metálica que sustenta o teto das varandas.

Esse agravamento foi verificado também pela equipe do Tribunal Regional Eleitoral (TER), que visitou a escola para prepará-la para receber as seções eleitorais da região em outubro. “É um descaso muito grande, uma negligência, mais uma vez, do Estado. E sobre um problema que a Sedu já tinha conhecimento, um problema perigoso, urgente, que coloca em risco a vida de pessoas”, protesta Ronimárcia.

Além dos danos materiais e dos transtornos ao calendário escolar, houve danos morais aos estudantes, que preparavam material para exposição na III Feira da Reforma Agrária, que acontece na próxima semana em Vitória. “Como a escola não vai funcionar essa semana, inviabiliza recuperar e produzir novo material. Os estudantes ficarão de fora da feira”, lamenta Adelso. “Esse tipo de dano a Sedu não repara”, diz.

O Assentamento Valdício Barbosa dos Santos foi criado em 1996, quando a escola funcionou em uma tapera de tábuas e palha. No ano seguinte, teve início a construção do atual prédio, que tem uma parte de alvenaria e outra de fibra. O incêndio foi na parte de alvenaria, com forro de pvc.

Há pelo menos mais uma escola em situação semelhante, com risco iminente de incêndio na parte elétrica, no Assentamento Castro Alves, em Pedro Canário.

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