Entidades denunciam extinção da CJP ao Papa Francisco 

Um manifesto, assinado por 16 entidades, será enviado ao chefe maior da Igreja Católica

Dezesseis entidades capixabas ligadas à defesa dos Direitos Humanos assinaram um manifesto, na última sexta-feira (17), que será enviado ao Papa Francisco no Vaticano, Itália. Com o título “De que lado Cristo estaria?”, o documento pede que o chefe maior da Igreja Católica no mundo interfira em favor do retorno da Comissão Justiça e Paz (CJP), organização com 40 anos de luta em favor dos mais pobres e desfavorecidos capixabas, que foi dissolvida pelo arcebispo metropolitano Dom Luiz Mancilha no dia 3 deste mês de agosto. 

O manifesto foi uma das ações do Ato em Solidariedade à CJP, realizado na Associação dos Docentes da Ufes (Adufes), no campus de Goiabeiras, Vitória. A extinção da CJP foi considerada uma decisão unilateral e autoritária do arcebispo metropolitano, que sequer consultou ou conversou com os membros da entidade.  

Luiz Mancilha extinguiu a CJP um dia depois da renúncia do então presidente da Comissão, Bruno Toledo, que entregou o cargo como reação ao encontro de Mancilha e o senador Magno Malta (PR), defensor declarado da pena de morte e da redução da maioridade penal, entre outras medidas condenadas pelos militantes dos direitos humanos.  

No manifesto que será enviado ao Papa Francisco, as entidades assinam o texto que traz uma séria de denúncias a respeito da situação social no Brasil e no Espírito Santo.

“Somos hoje no Brasil cerca de 14 milhões de desempregados; 55 milhões de pobres; 101 mil sem moradia; e 60 mil irmãos e irmãs nossos tombam assassinados por ano, na sua esmagadora maioria negros, jovens, pobres. A cada duas horas, uma mulher é assassinada neste país. A cada 19 horas, mata-se um homossexual. Nunca se matou tanto no campo em função da luta pela terra. Mais de 700 mil brasileiros e brasileiras vivem amontoados como animais em nossas prisões, que se tornaram masmorras-contemporâneas.

E completa: “No Espírito Santo, não é diferente da realidade nacional. Aqui jovens e mulheres, pobres e negros, são alvo cotidiano de ações de violação dos direitos humanos. As prisões capixabas foram alvo de denúncia internacional por vilipendiar a vida dos serem humanos que ali estão encarcerados, e a violência não cessou. Crimes ambientais têm retirado o pão de cada dia de muitos capixabas pobres, a austeridade governamental local tem redundado em um austericídio sem precedentes, negando o acesso a direitos básicos de saúde, educação, moradia, dentre outros. Este cenário vem exigindo de cada um de nós uma atenção ao que se passa com a parcela mais pobre e vulnerável da população”. 

40 anos em favor dos movimentos sociais

O manifesto destaca ainda um histórico da CJP, que há mais de 40 anos se faz aliada dos movimentos populares no Espírito Santo. Criada ainda na ditadura militar pelos bispos Dom João da Batista da Motta e Albuquerque e Dom Luis Gonzaga Fernandes, teve como seu primeiro presidente o reconhecido jurista João Baptista Herkenhoff. Desde então, a história das lutas dos movimentos populares no Espírito Santo se confunde com a história da Comissão. 

As entidades também não pouparam o arcebispo metropolitano: “Lamentavelmente, no comando da Arquidiocese de Vitória, o senhor arcebispo D. Luiz Mancilha Vilela, parece não entender o claríssimo apelo do Papa Francisco. Na contramão da história, de costas para as necessidades do povo capixaba, em total dissintonia com as diretrizes emanadas pelo Vaticano, abraça e se deixa usar eleitoralmente por um dos representantes da mais retrógrada e fisiológica política brasileira. Alguém que defende abertamente a pena de morte, a redução da idade penal, a castração química, e que apoia um candidato a presidente da República que nega ter havido ditadura militar no Brasil, relativiza a tortura, faz declarações misóginas, homofóbicas e racistas”. 

Por fim: “São 40 anos de uma história de luta e resistência profética interrompidos pela caneta de um líder religioso fora do seu tempo e em descompasso com o clamor do seu povo. Extinguir a CJP é fechar a porta da Igreja aos movimentos sociais. Extinguir a CJP é afirmar ao povo capixaba que o Arcebispo fecha os olhos da Igreja ao drama político-social que vive nosso povo. Extinguir a CJP é um recado claro da posição que o arcebispo deseja que a Igreja tome em relação ao violento e acelerado processo de retirada de direitos do povo e à ameaça real que sofre a democracia brasileira”, relatado o documento. 

Assinam o Manifesto:
1-Fórum Capixaba de Lutas Sociais 
2-Conselho Estadual dos Direitos Humanos 
3-Círculo Palmarino 
4-Associação GOLD 
5-União de Negros pela Igualdade - Unegro 
6-Centro de Apoio aos Direitos Humanos – CADH 
7-Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH/ES 
8-Associação dos Docentes da Ufes – Adufes 
9-Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra – CDDH/Serra 
10-Centro de Defesa dos Direitos Humanos “Dom Tomás Balduíno” 
11-Sociedade Colatinense de Direitos Humanos 
12-Associação dos Defensores Públicos do Espírito Santo – Adepes 
13-Diretório Central dos Estudantes da Ufes – DCE/Ufes 
14-Brigadas Populares 
15-Comissão Permanente de Direitos Humanos “Cida Barreto” – CPDH/Ufes 
16-Diretoria de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil OAB/ES.

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