Dentro da escola, poesia ganha letras e formas

Projeto Arte e Resistência incentiva literatura marginal e poesia visual para jovens em Vitória

Uma foto desfocada da tia serve de base para Nemias Martins, que desenha em giz pastel seco sobre papel canson. Tudo começa com um borrão negro que passo a passo vai ganhando forma de busto, com feições, usando o giz e a borracha. Estamos no último dos 12 encontros presenciais do projeto Arte e Resistência, que acontece no colégio Major Pedro Rabaioli, em Mário Cypreste, ao lado do Sambão do Povo, em Vitória.

A professora Geisa Silva avalia e dá dicas para os 22 jovens estudantes que vão construindo desenhos de pessoas que consideram referência. Se desdobra, mas conta com ajuda da amiga Geanna Abreu. Serve bolo, ensina a técnica, orienta as pinturas, segura no colo o filho Nuno, que sorri e tenta pegar as folhas de desenho. O clima é agradável: os jovens conversam na hora do lanchinho, mas se concentram no desenho assim que retornam.

Ninguém é obrigado a estar ali. O projeto, desenvolvido com apoio de um edital de fomento da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), acontece no contraturno, como atividade extracurricular e aberta à comunidade externa. "O recurso do edital ajuda a ter verba para o material de artes, que é escasso na escola, a gente trabalha com o mínimo", diz a professora.

Alunos de ensino fundamental, médio e educação de jovens e adultos (EJA) dos turnos da tarde e da noite se reúnem nas manhãs de quinta-feira para participar do projeto. "Dando aula na escola vi interesse de muitos alunos em poesia marginal, muitos iniciando a escrita, mas às vezes não acreditavam muito naquilo que estavam fazendo". Com o novo projeto encontraram um espaço de incentivo.

"Sempre quando tem algo envolvendo arte gosto de participar para adquirir experiência e conhecimento. Quem tem conhecimento, tem tudo", afirma Nemias, que também participou de projeto de música como a Orquestra Sinfônica Jovem do Espírito Santo e gosta de acompanhar a produção cinematográfica desde sua fase de produção. "Eu me inscrevi porque achei que seria uma ótima experiência para aprender. Eu não sabia quase nada de arte e acho que a gente melhorou muito e foi aprendendo juntos", relata Lariani de Abreu, outra participante.

O primeiro passo foi ter acesso a livros e autores que abordam a literatura marginal e a partir daí buscar escrever. Inicialmente frases curtas, que lembrassem ensinamentos ou sintetizassem ideias que pudessem ser transformadas em stencil, técnica ligada ao graffiti, trabalhando assim a poesia de forma visual. Usando chapas de radiografias antigas e tinta, a poesia pode ser transplantada para cartazes que hoje intervém nas paredes da escola e também em camisas carregadas de mensagem.

Alguns alunos já escreviam, como é o caso de Kevynn Martins, de 14 anos, que faz poesia há dois anos e meio. Com o projeto Arte e Resistência ele teve contato pela primeira vez com a chamada literatura marginal.  "Na hora que vi aquela poesia com tantas palavras que não eram usadas no formal do nosso vocabulário, por mais que algumas pessoas achem chulo, gostei bastante, porque era muito bom. Levo uma nova visão sobre o mundo, sobre o que eu posso falar a mais e o que eu vejo que tem que ser falado. Nossa linguagem muda totalmente, nossa visão, tudo muda".

O pintor e escultor colombiano Fernando Botero disse que o artista é universal apenas quando está fortemente enraizado na própria comunidade onde nasceu.  E é nesse sentido que veio o passo seguinte do projeto. Cada participante escolheu uma pessoa de sua comunidade que considere referência, que sirva de inspiração. "Escolhi minha mãe porque é a pessoa mais guerreira que eu conheço, tudo que ela quer consegue, luta para ter o que quer. Então para mim é um exemplo de pessoa", diz Lauriani, que junto com os colegas escreveu sobre o poder da mulher, preconceito, bullying e outros temas nos primeiros momentos do projeto.

Aí se juntam o trabalho poético e visual novamente. O exercício foi buscar uma foto dessa pessoa, que serve de base para construir um retrato pintado pelos jovens. Começando pelo borrão e usando como referência inicialmente a foto desfocada em vários níveis, até alcançar a fotografia original e finalizar o desenho.

Em paralelo, cada um busca informações sobre a vida da pessoa escolhida, a maioria parentes ou próximas, para transformá-las em poesia. A finalização do projeto será com a elaboração de um catálogo com as pinturas e poesias, com apresentação em evento com homenagem às pessoas retratadas em versos e imagens pelos participantes do Arte e Resistência. "Esse projeto explora muito nossa criatividade e isso é algo difícil de se encontrar nas escolas públicas hoje", afirma Kevynn.

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