Centros culturais alternativos lutam por reconhecimento e políticas públicas

Espaços não-governamentais estão espalhados pela Região Metropolitana mas têm dificuldades de sustentação

Contra todos os prognósticos, eles decidiram abrir espaços de arte e cultura. Seja na própria casa, num local comunitário ou alugado, são diversos os centros culturais que funcionam sem apoio de empresas e muitas vezes invisíveis aos poderes públicos. Desde março, responsáveis por alguns desses espaços começaram a se articular no que chamam até então de Coletivo de Espaços Culturais Não-Governamentais. 

O objetivo é pensar possibilidades de ação conjunta, sobretudo buscando estratégias para manutenção e sobrevivência dos locais, que precisam lidar com as contas a pagar como aluguel, luz, água e outros custos para fazer acontecer, embora contem com poucos recursos de ingresso. “Recebemos trabalhos de vários artistas que não são patrocinados, aulas e oficinas que não recebem financiamento. Aí como vamos cobrar de artistas que não têm dinheiro?”, questiona Antônio Vitor, gestor do Centro Cultural Eliziário Rangel, que funciona há três anos em São Diogo, na Serra.

O grupo já mapeou 17 espaços na Grande Vitória, desde a Barra do Jucu até Jacaraípe, passando por bairros como Flexal, Goiabeiras e Centro de Vitória. “É uma rede bem espalhada, cada espaço tem um fazer cultural próprio e muito particular. Ao mesmo tempo temos algo em comum que atravessa a todos que é manter um espaço de produção de arte e cultura vivo, aberto à comunidade. Como receber e o que ofertar vai variar muito”, explica Antônio. Um levantamento feito pelo coletivo aponta também que juntos, esses espaços teriam mais seguidores nas redes sociais que todos os espaços públicos estaduais juntos, mostrando o alcance que possuem.

Nos espaços mapeados, acontecem iniciativas como apresentações de teatro, lançamentos de livros, saraus, shows, performances, apresentações circenses, exposições, cineclubes, oficinas e aulas de danças, esportes e outros, abrindo espaço também para a cultura popular e a economia criativa. Alguns possuem pessoa jurídica, mas a maioria opera de maneira informal, muitas vezes sendo bancadas por recursos próprios de seus criadores e colaboradores para funcionar.

Yvana Belchior, do Emparede Contemporânea, lembra que muitos dos espaços vão para além da arte e cultura, envolvendo também outros setores como educação, meio ambiente, direitos humanos e assistência social. “Queremos dizer que a gente alcança a sociedade civil em lugares em que às vezes o poder público não consegue alcançar. Estou num espaço dentro da periferia onde o Estado não está”. Há sete anos, a casa familiar, localizada em Santo Antônio, em Vitória, tornou-se um espaço para exposições de artes plásticas, cineclube e atividades de educação ambiental a partir da criação de abelhas sem ferrão. 

Um destes espaços culturais mais antigos em atividade é a Casa da Stael, que funciona há 12 anos no coração do Centro de Vitória. A produtora cultural Stael Magesck, que mora no local e o coordena, acredita que o surgimento do coletivo dos centros culturais ajuda a ampliar a visão sobre as possibilidades para fortalecer a atuação destes espaços alternativos. “A gente percebe que muitas demandas são parecidas e também passamos a buscar soluções em conjunto. A importância desse movimento é micro mas também macro, de pensar políticas públicas voltadas para esses espaços, construindo redes para fortalecer não só cada espaço, mas o movimento cultural metropolitano como um todo”, considera. Um primeiro momento para colocar as questões para o poder público deve ser uma reunião com o secretário de Estado da Cultura, Fabricio Noronha, marcada para dia 10 de julho no Eliziário Rangel.

Stael considera que cursos de capacitação e assessoria em gestão cultural pode ser útil para ajudar na administração e finanças dos espaços. “Quando decidi abrir um espaço cultural não era porque sonhava em ser administradora, mas são demandas que aparecem", conta.

Para Yvana, a articulação é um primeiro passo para se fazer notar este trabalho que acontece de forma difusa pela região metropolitana. "Temos representatividade social. Queremos reconhecimento e ser valorizados com condições mínimas", diz a artista e produtora cultural.

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