‘Caminhamos para um autoritarismo ou para uma democracia colaborativa?’

Abrindo o XXIV Intercom Sudeste, na Ufes, Giovandro Ferreira fala sobre comunicação e crise da democracia

A autoridade, em diferentes frentes, entrou em crise. A democracia representativa que tínhamos está em crise. Reflexos de uma nova revolução nos processos de comunicação no século XXI, a crise de autoridades e mediadores e da democracia nos coloca diante de uma encruzilhada: “Vamos regredir pra um autoritarismo ou vamos evoluir para uma democracia colaborativa?”, questiona o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), Giovandro Marcus Ferreira.

Capixaba e professor de Comunicação na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Giovandro participará, às 19h, da abertura do XXIV Congresso de Ciências da Comunicação da Região Sudeste (Intercom Sudeste), que começa nesta segunda-feira (3), no campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com uma programação diversificada, até a próxima quarta-feira (5).

Sua fala discorrerá sobre “Fluxos comunicacionais e a crise da democracia”, o tema central do evento, que conta com mais de 1,5 mil inscritos – entre estudantes, professores, pesquisadores e profissionais de Comunicação –, 900 trabalhos acadêmicos recebidos, 80 estudantes de graduação e de pós-graduação envolvidos na organização, 17 oficinas e 18 livros apresentados.

Apesar do foco na dimensão política da crise de autoridade, Giovandro ressalta que ela acontece na sociedade como um todo. Há, por exemplo, uma horizontalidade cada vez mais acentuada na relação entre pais/mães e filhos/filhas e entre professores e estudantes, e a relação entre médico e paciente.

“Há 30 ou 40 anos, a palavra do médico era inquestionável. Hoje, antes de ir ao médico, a pessoa faz uma pesquisa na internet e vai ao consultório praticamente para ter uma segunda opinião, apenas”. Com o advento da internet, explana, “a discursividade e a representatividade social entraram em crise”, observa.

Sem julgamentos sobre o que há de positivo e negativo nessa mudança, o acadêmico se atém a realçar que as mudanças nas formas de comunicação geram profundas transformações socioculturais.

Fenômenos semelhantes aconteceram no século XV, com a Revolução de Gutemberg, criador de uma prensa que permitiu produzir livros de forma mecânica, aos milhares, ao invés da forma artesanal de até então. E também no século XIX, com a Revolução Industrial, quando ocorreram as primeiras tiragens de jornais com um milhão de exemplares.

'Redes sociais sempre existiram'

Enquanto Gutemberg inaugurou o fim do feudalismo e o início do capitalismo mercantilista, fazendo brotar as nações, em substituição aos feudos, a internet, hoje, e suas mídias sociais – lembrando que “redes sociais” sempre existiram, enfatiza o professor, citando o bairro, a família, a empresa ... –, traz como principais inovações a ampliação do acesso à informação, a proliferação de emissores de comunicação, em número praticamente equivalente ao de receptores, e o surgimento de uma terceira instância no fluxo básico da comunicação.

Originalmente restrita aos polos emissor e receptor, a comunicação agora tem uma terceira instância, que é a da circulação. Ou seja, o meio em que circula a informação/comunicação. E “os meios”, bem dizem os pensadores anarquistas do início do século XIX, “condicionam qualquer fim”, contrapondo, assim, a máxima de Maquiavel, de que “os fins justificam os meios”.

Um outro teórico europeu, já do início do século XX, Niklas Luhmann, afirma que os processos de comunicação são o alimento dos sistemas sociais, desaguando em Marshall McLuhan, que afirmava: “diga-me com quem andas e te direi o nível da evolução da sociedade em que você vive”.

Outro efeito da atual revolução das comunicações sobre o regime político dos países, prossegue Giovandro, é a escalada do nacionalismo, que tanto pode levar uma nação a valorizar mais a sua cultura, quanto a afrontar o diferente, o imigrante, o cigano, caindo em “um nacionalismo perverso, que busca construir união criando inimigos”.

Extrema direita

Ainda na abertura do Intercom, o professor Murilo Ramos, responsável pela conferência de abertura, destaca que a partir dos anos 1990 a internet surgiu como mais uma esperança de democratizar os fluxos comunicacionais entre sociedades e indivíduos, o que tem se acentuado desde então.

“A eleição de Donald Trump, a chegada ao poder de movimentos de extrema direita em países como Hungria, Polônia e Itália, a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, todos fazendo uso político abusivo das redes sociais, mostra que essa lógica se inverteu e que é preciso compreender melhor as dinâmicas antidemocráticas dessas novas ferramentas políticas e os modos possíveis de regulá-las”, alertou.

Programação

Na manhã desta terça-feira (4), a programação conta com um painel sobre “O papel dos observatórios de mídia em defesa da democracia”, que terá a participação da pesquisadora Inesita Araújo, do Observatório Saúde na Mídia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e do professor Edgard Rebouças, coordenador do Observatório da Mídia da Ufes. A mediação será do professor Rafael Bellan, também integrante do Observatório da Ufes.

Ainda no segundo dia de evento, às 14 horas, o Ensicom debate sobre as diretrizes curriculares do curso de Publicidade e Propaganda, com a presença do vice-presidente da Intercom, Fernando Almeida, e mediação da professora Iluska Coutinho (UFJF).

A pesquisa e produção acadêmica dos cursos de Comunicação Social serão temas de uma mesa-redonda, às 16 horas, com representantes de instituições de ensino da Região Sudeste: Bruno Franqueira (Universidade Vila Velha), Janaina Leite (Universidade Federal do Espírito Santo), Kátia Fraga (Universidade Federal de Viçosa), Marilene Matos (Faesa Centro Universitário) e Soraya Venegas (Universidade Estácio de Sá).

Às 19 horas, haverá a Mostra Universitária Lusófona, com exibição de curta-metragens produzidos pelos alunos do curso de cinema da Ufes e do Instituto Universitário da Maia, da cidade de Porto, em Portugal.

No dia 5 de junho, às 9 horas, o diretor de criação da Agência Filadélfia, de Belo Horizonte, Dan Zecchinelli, fala sobre a “Crise na Publicidade e suas oportunidades”. Dan Zecchinelli é vencedor de prêmios como Cannes Lions, The One Show, Clio, New York Festivals, Festival de Londres, El Ojo de Iberoamerica, Clube de Criação de São Paulo, Profissionais do Ano da Rede Globo e Prêmio Abril.

Para fechar o evento, a entrega dos prêmios da Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom) acontece às 18 horas desta quarta-feira (5). Os trabalhos experimentais desenvolvidos por estudos de graduação serão premiados, em mais de 60 categorias, como Filme de Ficção, Games, Comunicação Empresarial, Jornal Impresso, Programa de TV e Campanha Publicitária.

Interdisciplinar

Para o professor Edgard Rebouças, que é coordenador do Póscom-Ufes, a realização do evento neste ano na Ufes é importante não apenas para os cursos da área da Comunicação. “Nossos temas de pesquisa são interdisciplinares e dialogam com problemáticas da Educação, das Ciências Sociais em geral, da Saúde e das Tecnologias. Por isso a participação é aberta a todos. Também é importante mostrar como nossas pesquisas e cursos de graduação e de pós da Ufes têm se destacado no cenário nacional”, ressalta Edgard, que também é membro da direção nacional do Intercom.

O Intercom Sudeste é organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), junto ao Departamento de Comunicação Social da Ufes e ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades (Póscom-Ufes).

Programação completa

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Conselho Universitário da Ufes rejeita programa Future-se por unanimidade

Sessão histórica aconteceu no Teatro Universitário nesta sexta e marcou também posicionamento da reitoria

Cartilha sobre desinformação e fake news é lançada nesta terça-feira na Ufes

Pesquisadores da Ufes e Intervozes abordarão, em debate, o exemplo da greve da PM em 2017

Terceiro protesto da Educação expõe sucateamento e risco de privatização

Ato da Greve Nacional realizado em Vitória contou com passeatas e críticas ao programa Futura-se

Noventa por cento dos agricultores familiares do Caparaó usam agrotóxicos

Pesquisa é um dos temas da sessão especial para o Dia do Agricultor desta sexta-feira na Assembleia