Subserviência ao deserto verde: até quando?

Aprovação pela Assembleia de mais um benefício fiscal à Fibria mostra que a submissão do Estado ao setor continua a todo vapor

A eucaliptocultura é a forma de uso do solo que mais cresce no Espírito Santo. Segundo o Atlas da Mata Atlântica do Espírito Santo, entre 2007 e 2015, a área plantada com eucaliptos cresceu 45,34 mil hectares, cobrindo quase 7% do território.

Inicialmente implantada sobre os escombros da densa Floresta de Tabuleiro da Mata Atlântica no norte e noroeste capixaba, derrubada pelos correntões da então Aracruz Florestal, a monocultura de eucalipto avança hoje sobre canaviais e pastagens abandonadas, e não apenas nas baixadas e planícies acima do Rio Doce, mas também nas áreas montanhosas nas regiões central e sul do Estado.

A geração de empregos, no entanto, cai ininterruptamente. Atividades que antes empregavam quase 20 mil pessoas, hoje precisam de 600 ou um pouco mais. Uma única máquina faz praticamente todo o trabalho: extrai o eucalipto da terra, retira os galhos, corta o tronco e o carrega nos caminhões. A limpeza, antes exigente de mão de obra, agora é química. E por aí vai.

Outra coisa que cresce muito no mundo da Aracruz Celulose é a subserviência do Estado, com destaque para as Isenções tributárias e incentivos fiscais. A aprovação, esta semana na Assembleia Legislativa, de mais uma manobra legal para retirar dinheiro do Tesouro Estadual e injetar nos cofres da multinacional, proposta por Renato Casagrande, é prova de que a submissão do Espírito Santo ao deserto verde não é exclusividade de um único gestor.

Afinal, Paulo Hartung já é conhecido por sua relação de intimidade com a família Lorentzen e seu deserto verde, por meio de financiamento de campanhas. Defensor ardoroso dos interesses da papeleira em todas as suas gestões, agora é presidente da Ibá – Indústria Brasileira de Árvores, associação lançada em 2014, para representar institucionalmente os interesses da cadeia produtiva de árvores, do campo à indústria.

Mas Renato Casagrande, ao que tudo indica, dará prosseguimento ao modus operandi que atende aos interesses do setor. E isso mesmo em meio a uma luta acirrada dos servidores públicos estaduais pela reposição inflacionária dos salários nos últimos três anos. Ao invés de atender ao direito constitucional dos trabalhadores, esforça-se em aprovar em regime de urgência mais uma sangria de recursos públicos para aumentar o poder de um dos setores mais devastadores, do ponto de vista social, ambiental e econômico na história do Espírito Santo.

A apropriação da palavra “floresta”, então, é uma verdadeira afronta. Pois chamar de floresta uma monocultura, qualquer que seja o porte dos vegetais plantados – de gramíneas para o gado a eucaliptos para exportação de celulose – é uma prova inconteste da maneira medíocre de enxergar a natureza e os serviços ambientais e, principalmente, um atestado de cegueira frente a dignidade e mesmo a existência dos chamados povos da floresta.

A monocultura de eucaliptos da Aracruz Celulose destruiu uma próspera agricultura familiar em todo o norte e noroeste do Estado. Ou seja: expulsou do campo, aos milhares, famílias quilombolas e camponesas que produziam alimentos saudáveis para a cidade. E com eles, foram-se incontáveis (milhares) de córregos, lagoas e nascentes, origem maior da atual crise hídrica. Sem falar nos indígenas de Santa Cruz, em Aracruz, que a empresa insiste em afirmar que não existiam quando da sua instalação na região do Piraquê-açú.

Quantos empregos são gerados pelas três fábricas da Aracruz e os plantios de eucaliptos que a sustentam? Cinco mil? Oito mil? Toda a cadeia produtiva do negócio, no Estado, emprega o equivalente a pelo menos um shopping center da região metropolitana? Quiçá dois? A qual custo? Quantos milhões de reais oriundos dos cofres públicos são necessários para garantir um posto de trabalho nesse setor? E o negócio da celulose, ao final de tantas isenções e benesses governamentais, deixa quanto em tributos?

O possível passivo econômico da silvicultura ainda é acrescido pela ausência da circulação, nos bancos capixabas, do dinheiro que ela movimenta, pois sua sede em São Paulo impede que a receita do negócio hidrate nossa economia. A secura do solo exaurido pelo deserto verde, deve se refletir também nessa movimentação financeira.

Ajustando o olhar para ver a realidade do setor de celulose no Estado, por detrás de relatórios anuais e da cara publicidade institucional nos principais meios de comunicação, a pergunta que permanece sem resposta é: até quando o Espírito Santo continuará subserviente aos interesses do setor de celulose e seus desertos verdes?

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