O poder da solidariedade

Uma despretenciosa iniciativa de um professor, na Serra, mostra a eficácia do afeto como elemento transformador da sociedade

Qual a relação entre os projetos anticrime engendrados pelo ministro Sérgio Moro e o senador Marcos do Val (PPS), a extinção dos conselhos sociais pelo presidente Jair Bolsonaro e as manifestações de afeto e carinho de cerca de 500 alunos registradas na semana passada na despedida de um professor na escola Maria Penedo, localizada na Serra, um dos municípios mais violentos do Estado? 

Os fatos são lados opostos de uma mesma moeda e demonstram a realidade cruel da sociedade brasileira: de um lado, ações que, aparentemente, representam intervenções seguras do Estado visando ao bem-estar das pessoas, mas, na verdade, seus objetivos ampliam o sentimento de orfandade da população e transformam em vítimas grande parte da sociedade.  

Isso porque, tanto os projetos anticrime quanto a extinção dos conselhos sociais aumentam a possibilidade de exclusão, reduzindo a participação popular na criação, implementação e fiscalização de políticas públicas que poderiam compensar o imobilismo e a omissão da classe política, envolvida até o pescoço em resultados com base em uma lógica eleitoreira. 

Mais que isso: escancara a porta para a prática de atos violentos por agentes públicos, acobertando-os por meios de sofismas ditos legais, representantes de um Estado opressor em nada solidário ou generoso, a não ser para aumentar o bolo dos privilegiados e mascarar, quando possível, a miséria crescente que serve de combustível à violência. 

De outro lado, sem estardalhaço, surge um projeto que coloca como ponto essencial o afeto entre as pessoas, a generosidade e o perdão. Ameaçado por um aluno, na escola Maria Penedo, Serra, o professor Nourival Cardoso Júnior muniu-se de coragem e foi visitá-lo no hospital onde o jovem se encontrava. Ali, ele expressou o perdão e a solidariedade, sentimentos totalmente contrários ao clima de competição que marca a sociedade atual. 

Naquele momento, nascia a Oficina do Afeto, que pode se transformar em projeto a ser implantado nas escolas do município, e representa um avanço no modelo educacional, a partir da tomada de posição contra a violência por meio do afeto, de saber ouvir as necessidades do outro, fatores desprezados por uma política de resultados dentro da lógica liberal. 

Há quem possa acreditar que esse acontecimento nenhuma relação tenha com os projetos anticrime a extinção dos conselhos. No entanto, há entre eles um fio imaginário que constrói um retrato da desigualdade, que gera raiva, angústia e uma violência crescente. O cenário mostra, de um lado, o estimulo à brutalidade e ao autoritarismo: de outro, a valorização da pessoa, sem se importar com crenças ou ideologias. 

Amar a população, flexibilizar medidas punitivas de agentes públicos infratores, como os maus policiais, e excluir a participação popular nas decisões que atingem a coletividade só servem para aumentar os índices de violência, tendo como maiores vítimas os pobres e pretos. 

E mais: iniciativas como a extinção dos conselhos sociais colocam em risco a água dos rios e mananciais, como ocorreu recentemente nos crimes ambientais cometidos pela Vale nas cidades de Mariana e Brumadinho. Desse modo, afasta a solidariedade, gerando aumento da desigualdade social e, em decorrência, um fardo pesado para todos.    

Iniciativas como a do professor Nourival Júnior poderão se transformar em poderosos elementos transformadores da sociedade, tornando-a mais justa e, em consequência, menos violenta.

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