'Lesado presidente'

Em carta aberta sobre a fome, jornal de moradores de rua critica o chefe do governo

“Estamos rindo de nervosos ao ‘saber’ que não existe fome no Brasil. O senhor tem ofendido a nossa inteligência de muitas maneiras desde que se elegeu. Ultimamente ofendeu o povo do Nordeste e disse que sabia o que tinha acontecido com um desaparecido político preso durante a ditadura militar. O senhor fala ou faz piadas de mau gosto? O senhor tem ideia do que é fome? Já falou com alguém que passa fome? Por meio desta carta nós lhe fazemos um desafio: viva na rua um único dia e durma uma noite de inverno com chuva debaixo da aba. Sozinho. Sem filho nem segurança por perto.

Também aqui na carta lhe fazemos algumas perguntas sobre coisas que o seu governo está fazendo. Como não vamos passar fome se estão fechando os restaurantes populares, os pops e os albergues? Como não vamos passar fome se querem proibir até as pessoas de nos fornecer comida na rua? Como não vamos passar fome se estão terminando com as politicas sociais como o “Minha Casa, Minha Vida”, a Bolsa-família e o benefício dos doentes, além de desvalorizar o Salário Mínimo e reduzir os direitos dos trabalhadores? Como não vamos passar fome se estão fechando as fábricas, as empresas e as pessoas desempregadas são despejadas das suas casas porque não conseguem mais pagar o aluguel? Como não vamos passar fome se, quando as famílias tentam mudar a sua qualidade de vida ocupando prédios abandonados – alguns públicos – são expulsas com violência pela polícia?

Como não vamos passar fome se não tivermos direito de estudar? O senhor diz que o conhecimento é a maior arma contra a fome. Mas, por outro lado, fecha escolas, acha que as cotas são injustas e corta o dinheiro das universidades. Isso é uma contradição!

Por tudo isso, lesado presidente, apesar da gente ter bem mais respeito do que o senhor – que ofende as pessoas e trata o povo como burro – dizemos com todas as letras: o senhor está falando mentiras. As pessoas passam fome, sim, porque não conseguem estudar, não têm trabalho e, quando têm, os salários são uma miséria. Enquanto o senhor gasta o dinheiro do povo comprando votos para aprovar a Reforma da Previdência, os políticos e os juízes fazem jantar com lagosta e vinho importado, nós passamos fome, sim. E o senhor sabe disso. Ou então, é ainda mais lesado do que parece. A gente não é igual àqueles macaquinhos que não querem ver, nem ouvir, nem falar. Nós somos do Boca de Rua que observa, ouve e fala.

Atenciosamente, Equipe do Jornal Boca de Rua”

(Editorial transcrito da página 2/16 da edição nº 72, ano XVIII – julho, agosto e setembro de 2019 – R$ 2,00).

LEMBRETE DE OCASIÃO

O jornal Boca de Rua é editado e impresso em Porto Alegre pela Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação/ALICE (alice@alice.org.br; www.alice.org.br; no Facebook: @jornalbocaderua  

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