Gurus e Curandeiros - Parte V

Voltando à descrição do ectoplasma, temos que este foi batizado por Charles Richet

O fenômeno da medicina dos espíritos, tematizado no texto anterior, quando falamos das diversas manifestações do Dr.Fritz, segue aqui, desta vez, com o caso de Frederick Von Stein, e que nos remete aos documentos sobre materialização que existem na História do Espiritismo, mas que, em sua maioria, encerram um tempo de muitas décadas atrás, pois, lembrando deste processo histórico, tivemos um clímax na Europa da cultura dos salões, o que começou com os fenômenos físicos das mesas girantes e que evoluiu com a codificação intelectual de Allan Kardec, num salto qualitativo que deu condições ao Espiritismo de se estruturar e se fundamentar como doutrina e não mais como uma diversão de salão, o que era quase como uma mistificação de circo, na sua eclosão primeva.

Por outro lado, no Brasil, a expansão do Espiritismo, na sua vertente principal kardecista, em digressões variadas como em Ramatis, e no espectro africano que envolve o Candomblé e o sincretismo da Umbanda, temos uma nova primavera do Espiritismo já no século XX e que perdura agora no século XXI. Por sua vez, quando falamos dos fenômenos de materialização (e lembrando aqui que já falamos de Sai Baba e seus vibhutis e amuletos), é prudente nos situarmos no fato de que são fenômenos tão raros quanto a levitação, ou seja, a documentação é controversa e escassa, e são objeto de polêmica dentro do próprio meio espírita, repleto de fraudes comprovadas.

Bem, agora falando do Dr. Frederick Von Stein, este espírito possui uma história de manifestações, junto com suas falanges, que se deram no Lar de Frei Luiz. E um dos documentos que se referem à atuação destes médicos espirituais é a série de livros em formato de documentário do jornalista Ronie Lima, Médicos do Espaço, com a capa com a foto do doutor Frederick Von Stein materializado, e A Vida Além do Véu, em que temos a conversão do jornalista cético depois de alguns testemunhos dos fenômenos espíritas.

Na fundação do Lar de Frei Luiz, por sua vez, que fica na Taquara, no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, temos a história emocionante do Dr. Luís da Rocha Lima, primeiro presidente do Lar em 1947. Uma das polêmicas é que quando se conta a história do doutor Frederick, ele é intitulado médico e ex-nazista do primeiro reich, ou seja, há um erro crasso de conhecimento histórico nesta versão, pois o Primeiro Reich seria o Sacro Império Romano-Germânico, surgido com o monarca Oto I, em 962. Tal reich acabou em 1806, com as invasões napoleônicas, ou seja, a léguas de distância do nazismo do Terceiro Reich. Aqui, portanto, fica a impressão de que, se não houve uma mistificação nesta comunicação, foi um caso de desatenção primária, pois o cuidado e rigor das comunicações espíritas eram recomendados pelo próprio codificador Kardec, não ao acaso, devido à sucessão ininterrupta de casos de espíritos zombeteiros, pseudo-sábios, e os mais nocivos, que são os ardilosos.

Bem, guardando esta gafe histórica, Frederick ganha o auxílio e orientação do espírito Frei Luís, mentor de Rocha Lima e patrono da casa espírita, e passa a atuar em tratamentos in loco e à distância, seja em cirurgias ou em anti-goécia, e sendo a materialização um dos meios de sua manifestação através de um desses raros médiuns que liberam ectoplasma para o concurso do fenômeno, o médium Gilberto Arruda, assassinado dentro do próprio Lar, de noite, sorrateiramente.

Falando propriamente da materialização dos espíritos, temos a fonte principal em Kardec, muito bem documentada, e foi no Espiritismo que tal fenômeno se tornou mais evidente, mesmo não sendo algo de propriedade espírita, uma vez que tal fenômeno vem desde os tempos bíblicos, com relatos, segundo certas interpretações, no próprio livro sagrado.

A parte pretensamente científica do Espiritismo, muito bem estabelecida no Livro dos Médiuns de Allan Kardec, se consolida com as descrições dos fenômenos de materialização dos espíritos, ocorrências estas que podem ser muitas vezes realizadas através do ectoplasma dos médiuns, e os cientistas oficiais do século XIX, com destaque para Camille Flamarion, consideraram estes fenômenos como o caminho próprio para uma nova linha de investigação da ciência.

O ectoplasma, por sua vez, é uma substância que se trata de um fluido viscoso que sai do corpo do próprio médium, e isto por meio de todos os orifícios do corpo do médium. E, na época de Kardec, tais fenômenos eram analisados e comprovados sob um rigor em que, muitas vezes, para evitar fraudes, os médiuns eram isolados e acorrentados, ficando até nus, tudo para comprovar a veracidade de tais fenômenos.

Temos que, por outro lado, em condições bem especiais, a manifestação visível de um espírito aos encarnados pode se dar, também, sem o concurso de um médium, e o processo envolve uma modificação na vibração do corpo espiritual, na verdade uma baixa nesta vibração, e que pode ser comparada a um disco de cores newtoniano, em que diminuindo a sua rotação temos como divisar as cores que até então estavam ocultas.

E, voltando à descrição do ectoplasma, temos que este foi batizado por Charles Richet, um médico fisiologista francês, e que é uma palavra que junta o grego ektós, fora, exterior, e Plasma. Substância viscosa, branca, quase transparente, com aspecto leitoso, evanescente sob a luz, que provém do citoplasma celular, do sistema nervoso central, ou seja, de um corpo material, isto é, do corpo do médium, ectoplasma que pode ser moldado pela energia do próprio pensamento e vontade do médium que o expele pelos orifícios, ou ainda também moldável pelos espíritos desencarnados, massa esta que, por sua vez, é sensível à luz, eletricidade e magnetismo, e neste fenômeno, por fim, tais espíritos podem atuar sobre a matéria, em sessões em cabines escuras, devido à questão da sensibilidade extrema da materialização em relação à luz.

Em 1870, temos a pesquisa do físico e químico inglês William Crookes, o descobridor do elemento "Talio" (TI), ele que se volta ao fenômeno da materialização dos espíritos, inicialmente, com a intenção de revelar as fraudes e ilusões que ele esperava descobrir, mas, no entanto, depois de três anos de estudos e investigações, ele se depara com a jovem médium de 17 anos, Florence Cook, que era considerada um fenômeno em sua época, e que já havia sofrido denúncia de fraude. E depois de uma análise rigorosa seu veredicto era espantoso, a médium era capaz de liberar uma quantidade colossal de ectoplasma, em transe mediúnico, e em meio disso se materializava o espírito feminino de Kate King, que ficava andando e falando por mais de duas horas seguidas, e Crookes, por fim, anexou à sua pesquisa 48 fotografias.

Como nos relata Gabriel Delanne, um dos continuadores da codificação de Allan Kardec, junto com Léon Denis, temos : "William Crookes foi, na Europa, o primeiro cientista que teve o valor de comprovar, escrupulosamente, as afirmações dos espíritas. Muito cético, a princípio, suas investigações o conduziram progressivamente à convicção de que esses fenômenos são verdadeiros e não titubeou um único momento em proclamar, em alto e bom som, a certeza em que resultou o seu trabalho.” Se seguiu a esta pesquisa pioneira, várias outras pesquisas de cientistas renomados, tais como César Lombroso, este na Itália, Richet, que cunhou o termo ectoplasma, como dito acima, que, junto com Camille Flamarion, Gibier e De Rochas, na França, comprovam a mediunidade de Eusápia Paladino.

Por sua vez, temos o testemunho de Camille Flamarion, um dos mais importantes astrônomos do século XIX, francês, que nos diz : “"Porque, senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da qual apenas conhecemos o ABC. O tempo dos dogmas terminou. A Natureza abarca o Universo. O próprio Deus, que outrora foi feito à imagem do homem, não pode ser considerado pela Metafísica moderna senão como um espírito na Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas através dos médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma Ciência desconhecida."

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Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


 

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