De vaias e choros

As vaias a Bolsonaro, domingo, no Maracanã, confirmam que a passividade da população está se esgotando

Ainda na fase de readaptação depois de um rápido período de férias, alegro-me com as vaias dirigidas ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) no jogo Brasil e Peru, domingo (7), no Maracanã, e constato que elas servem para mostrar o descontentamento popular e também estabelecem um fio de esperança, em meio aos embaraços previstos para a população, por conta da desastrosa gestão na esfera federal, fortalecida nesta semana pela quase certa aprovação da reforma previdenciária. 

Aos que não admitem o valor das vaias, como fizeram alguns apresentadores de TV, considerando-as desrespeito a Bolsonaro, Moro, Guedes e outros da comitiva presidencial, vale lembrar o consentimento externado por eles mesmos quando a então presidente Dilma Rousseff foi alvo de manifestações desse tipo, no mesmo local, em 2013. 

De onde se observa, sem qualquer dúvida, que as vaias são mais uma questão de lado do que de ética. Quem pôde pagar para ir ao estádio, em sua maioria, foi a classe média, responsável pela eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. O que se viu domingo foi a explosão do espernear dos arrependidos, que se espalha Brasil afora.

A frase “votei nesse cara pensando que ia melhorar e fui enganado” se torna mais comum a cada dia, um resultado diretamente relacionado à ineficiência do governo, agravada com fatos extremamente graves, ignorados pela chamada grande imprensa ou tratados como acontecimentos como outro qualquer.  

Entre esses, os 30 quilos de cocaína apreendidos na Espanha em um dos aviões da comitiva presidencial que ia ao Japão, o escândalo do conluio entre o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e os procuradores da Operação Lava Jato, a extinção de órgãos essenciais à preservação do meio ambiente, a recessão econômica, a entrega de valiosos ativos nacionais ao capital estrangeiro, o desmonte do País. Destaque maior para a área educacional, onde a foice do governo atua ferozmente.

É nesse cenário, de vaias e insatisfações, confirmado em pesquisas de opinião divulgadas no final de semana, que assisto Democracia em Vertigem, documentário da cineasta Petra Costa sobre o golpe de 2013. Engendrado para afastar a presidente Dilma Rousseff, com “Supremo, com tudo", segundo um de seus líderes, o ex-senador Romero Jucá, o movimento, com apoio da imprensa e da classe média, levou à prisão o ex-presidente Lula e possibilitou a eleição de Bolsonaro. 

A farsa montada com esses objetivos é mostrada, no filme, dentro da engrenagem histórica em que uma elite descompromissada com os destinos do País não se importa nem mesmo com atitudes ridículas, adotadas como sinal de patriotismo. Assim aparecem no documentário, por exemplo, o ex-senador Magno Malta e o ex-deputado Marcus Vicente, este enrolado na bandeira do Brasil. 

O documentário coloca a nu as articulações visando manter privilégios e destruir avanços sociais, desconstruindo o chavão de que a crise é uma “herança maldita” de governos passados, montado por detentores históricos do poder. Muito mais do que um ato desrespeitoso, as vaias certamente repercutem junto a Moro, Guedes, Bolsonaro, Onix e à multidão que se deixou manipular pelos meios de comunicação como forte sinal de que a tão falada passividade do brasileiro está se esgotando. 
 

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1 Comentários
  • machado , segunda, 08 de julho de 2019

    Luladrão ( o lula tá preso babaca! )e dilmanta foram vaiados, meu caro. Isso todos viram. Bolsonaro foi aplaudido, só você e toda a esquerda que não viram.