Ciranda da desigualdade

Número de pessoas em situação de rua aumenta e mostra o descompasso social das políticas públicas

No instante em que deixo o marmitex que me custou R$ 8 ao lado da mulher esquelética e suja, esticada na calçada, me vem à lembrança o esforço da deputada estadual Janete de Sá (PNM) em tocar a "CPI dos Bichos", instaurada para apurar denúncias de maus tratos aos animais, especialmente aos cães, que a cada dia tomam posse de nossos espaços, e outros atos bem distantes das necessidades do ser humano.  

A pretensão, ao comparar os dois fatos, não tem por objetivo retirar o mérito da parlamentar com sua CPI, porque afinal de contas, os animais devem ser bem tratados. Move-me o desejo de chamar a atenção para as quase mil pessoas que vivem em situação de rua, somente em Vitória, maltratadas e espezinhadas pelo sistema.

Sob a visão das políticas publicas, a situação é de vexame, porque essas pessoas só existem quando representam ameaça ao patrimônio, para efeito de puni-las, ou nos festejos promovidos por congregações religiosas, como a Páscoa, que celebra, equivocadamente, a ressurreição de Jesus, o Cristo. 

Essa multidão, formada na quase totalidade por negros, traz o ferro de uma maldade histórica ainda muito presente na sociedade. Para estes, não existem CPIs, mas tão somente a filantropia religiosa destituída de qualquer sentimento de altruísmo. 

Muitos são frutos do desemprego e do abandono social configurado na ausência de um olhar capaz de despertar o sentimento de solidariedade, único meio para reduzir as desigualdades. No entanto, a ruptura democrática ocorrida no Brasil em 2016 ampliou os índices de pobreza e, por esse viés, fornece combustível para tornar o cenário ainda pior, por meio do desemprego e dos bolsões de pobreza.   

A reforma da Previdência é um exemplo desse descaso, com destaque na premissa de que a retirada de direitos é essencial para reequilibrar a economia, sofisma que encanta até mesmo pobres desavisados: nada mais falso. 

Paralelamente, avança o projeto de reforma tributária, cujas alterações previstas mantêm o mesmo modelo, que taxa o consumo e mantém inalterada a relação de privilégios dos mais ricos. 

Nesse contexto, vale lembrar o ato de “altruísmo” da bilionária brasileira  Lily Safra, viúva do banqueiro Edmond Safra, que doou R$ 88 milhões para a reconstrução da catedral Notre Dame de Paris, um dos ícones mais representativos da opulência da Igreja Católica, da arte sacra e também da chamada Idade das Trevas com cruel inquisição, que foi destruída pelo fogo recentemente. 

Como a maioria dos ricos, ela não terá seus valiosos dividendos tributados e poderá repetir a dose em outras ocasiões, excetuando, fica evidente, casos como o de crianças morrendo de fome, no Brasil, no Zâmbia, Namíbia, Iêmen e outros países da África negra e na Ásia. 

Os projetos sociais, sempre em baixa quando são montados os planejamentos estratégicos, na maioria das vezes se inserem em áreas mais relacionadas à segurança pública e à assepsia da sociedade. Seus formuladores talvez achem que, acima de tudo, é preciso limpar a paisagem, tirar essa gente suja das ruas. Talvez para deixar os bichos mais à vontade.

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