Baratas voam

A perplexidade é um estado de espírito crescente entre os brasileiros

Já nos acostumamos com o linguajar desinibido do presidente, taokey?, e estamos aprendendo a assimilar, e até procurando entender, o espírito belicoso que emana das manifestações orais e escritas dos filhos parlamentares de Jair Bolsonaro – todos bastante abusados, liderando claques nas redes sociais --, mas tem sido cada vez mais difícil distinguir qual é o projeto do governo 2019-2022, se há algum.

Na balbúrdia que se instaurou, há quem diga que o falatório, o fakenewismo, as frases polêmicas e as declarações bombásticas são uma cortina de fumaça para levar adiante o plano maquiavélico de vender ativos nacionais a preço de liquidação ou pela melhor oferta, aproveitando-se da passividade do Judiciário e da omissão do Legislativo, cujos mandatários, em sua maioria, parecem sempre prontos a transformar ações, discursos e conchavos em mercadorias negociáveis num balcão eventual de pechinchas.

A conferir.  

O meio ambiente é objeto de barganha como se os recursos naturais do país estivessem em leilão, sendo cabeças de lote a Petrobras, o Pré-Sal e a Eletrobrás (a Embraer já era).

A educação está sendo transformada em mercadoria, enquanto a ciência é tratada como coisa de vagabundo.

O SUS, símbolo do direito universal à saúde, está entre o torniquete e a camisa-de-força.

Como consequência da supressão de direitos básicos como educação, saúde e emprego, grassa uma permanente crise de segurança que se manifesta, de um lado, na desconfiança da polícia; de outro, na proliferação de esquemas privados de segurança, como as milícias clandestinas, que ameaçam pessoas e exploram comunidades.   

Até quando esse desplante, esse desmanche constitucional?

Dias atrás, o advogado José Carlos Dias, 80 anos, respeitado defensor de perseguidos políticos pela ditadura militar, sentou-se na cadeira giratória do programa Roda Viva, anunciando que um grupo de pessoas se reuniu em São Paulo para defender a democracia ameaçada pelo despautério bolsonariano.

Bom saber que membros da sociedade civil se movimentam, embora nesse caso a reação traga o selo do dorianismo, que propõe a decolagem ao Planalto de João Doria, que se tornou governador de São Paulo depois de um voo rápido da vida empresarial para a prefeitura paulistana.

A TV Cultura SP, mãe da Roda Viva, está se colocando no ataque ao governo federal em benefício do tucano oportunista Doria, enquanto no ninho original dos tucanos jazem inertes as candidaturas de Aécio Neves e José Serra. São sinais de mudanças. Nuvens que talvez vertam chuvas.

Não nos enganemos, oito meses e meio depois da posse do presidente, já está no ar a campanha presidencial e tem gente falando em impeachment. “Tecnicamente, há motivo para um processo (por quebra de decoro)”, disse o doutor Dias, ressalvando que todo impeachment é ruim, mesmo quando se forja a maioria parlamentar necessária para consumar a decapitação do titular do mandato.

No entanto, se um processo de impedimento presidencial for concluído até o final de 2020, será preciso fazer uma nova eleição. Nesse caso, sejam quais forem os candidatos, o governador paulista já está no partidor batendo forte na tecla do empreendedorismo, da iniciativa privada e do rompimento das amarras trabalhistas – como se o vento soprasse só num sentido. Ou, seja, Doria é candidato a ser mais do mesmo que aí está.

Pode alguém manter-se no poder ignorando a força das contradições da dialética da História? A pergunta vale para todos os mandatários e candidatos ao poder supremo. E não serve como resposta à frase do vereador carioca Carlos Bolsonaro, que pôs no ar enquanto o doutor José Carlos Dias falava na Roda Viva: “Pelas vias democráticas o Brasil não alcançará o desenvolvimento rápido que se pretende”.

Nunca se acenou tão explicitamente por um golpe de estado. A quem interessa e quem colheria benefícios de um desenvolvimento por vias não democráticas? Resposta: os mesmos de sempre, a minoria rica, que despreza a democracia.     

A propaganda vigente do empreendedorismo como panacéia universal é um dos grandes engodos do momento. Prega-se o empreendedorismo como se  todas as pessoas fossem igualmente aptas a tocar negócios autônomos, bastando para isso contatar uma “start up”, buscar uma consultoria do Sebrae ou fazer um curso on line.

E assim o milagre estará feito, reza a mídia aflita para ganhar dinheiro com a suposta bolha que resultará do empreendedorismo: sem empregados, sem previdência, sem seguro saúde, apenas com prestadores de serviços recrutados por diárias módicas, sem direito a férias remuneradas, os neoempreendedores estarão comandando uma revolução sem precedentes – o capital se multiplicará magicamente e todos ficarão ricos.  

Balela: bolhas estouram e deixam flagelados.

Após cinco anos de recessão econômica, já temos dados para iniciar a história da grande regressão social, cultural, econômica e política em curso no Brasil. Mais dois ou três anos e o país estará dividido entre meia dúzia de castas, cada uma fechando os punhos diante da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

A grosso modo, a situação já se delineia. No alto estão os proprietários dos meios de produção, logo abaixo os executivos e gerentes que pilotam a máquina de moer gente, em seguida os altos funcionários públicos civis e militares, abaixo os profissionais liberais autônomos, abaixo os prestadores de serviços temporários organizados em cooperativas ou sindicatos e, na base, todos os biscateiros desassistidos, vítimas da falta de educação, saúde e previdência. Quem viver, talvez veja.  

LEMBRETE DE OCASIÃO

“O bom da gente ser pobre, triste, feio, doente e velho é que nada pior nos pode acontecer”. Millor Fernandes

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