A hora e a vez do cocô

As declarações do presidente Bolsonaro causam repulsa e surgem como um estímulo à queda de sua popularidade

“É, a coisa está feia, o Bolsonaro agora quer que o brasileiro faça cocô dia sim, dia não”, lamenta o homem, quase num cochicho, junto ao balcão do café onde nos debruçamos para tomar um espresso, como fazemos com certa frequência. A frase, bizarra, me leva a pensar em uma piada, mas estranho o tom muito baixo da fala e o olhar lançado para os lados, em tique nervoso. 

Ele explica: “Estou falando desse jeito porque tem muita gente por aqui e podemos ser agredidos; do jeito que as coisas estão nunca se sabe né?”. E você está preocupado com isso, pergunto, e não consigo conter uma gargalhada ao ouvir a resposta do cidadão, do qual não sei sequer o nome, apenas que é advogado. “Agora foi demais”, diz ele, e meneia a cabeça. 

O papo segue, evidentemente em torno da sugestão do presidente, apresentada sem qualquer constrangimento por parte dele em entrevista com jornalistas, destacando-se nas redes e nos mais importantes noticiários da imprensa. Virou meme nas redes, uma piada que nos leva a falar sobre a necessidade de ser criada uma comissão fiscalizadora e eventuais dificuldades para levar a termo essa tarefa, considerando que a prática de fazer cocô é muito pessoal, íntima. 

Entre um gole e outro de café, entremeados com risos, a conversa chega a temas menos bizarros, como reforma da Previdência, que retarda aposentadorias e consolidada a destruição da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), reduzindo para o trabalhador a possibilidade de usufruir de benefícios conquistados a duras penas. Esquece esse sonho de trabalhar a vida toda para no final gozar de um descanso mais do que merecido, comenta, sempre falando baixinho, olhar nervoso cobrindo o entorno de onde estamos - “nunca se sabe, né”?

Em nossos rápidos e eventuais encontros no café, conversamos sobre uma variedade de assuntos, do meio ambiente à política externa, os direitos sociais e trabalhistas. Discordamos na maioria das vezes. No entanto, depois do projeto excrementoso do Jair, dá para observar que alguma coisa mudou. 

Como se saísse de uma poça de fezes, ele alisa o cabelo com as mãos e vejo-o com se estivesse retirando toda a sujeira: fala da política nociva que atinge de forma dura a soberania nacional, critica a gestão econômica, os direitos humanos e, principalmente, a democracia. 

“Eu não vou mais me filiar ao PSL. Desisti de vez”, diz, convicto, e desabafa, para minha surpresa: “Votei nesse cara, ajudei a elegê-lo”. Refere-se ao evento organizado pelo ex-deputado federal Carlos Manato para novas filiações, a ser realizado no próximo dia 17, na Praça dos Namorados, em Vitória. 

Café terminado, saio com a constatação de que o veto presidencial a uma necessidade fisiológica tão importante e por vezes incontrolável, de um lado expõe toda a sua loucura, despreparo, falta de compostura e elevado grau de autoritarismo, mas, de outro, presta inestimável serviço à nação.

Funcionou como um somatório das asneiras, programadas ou não, ditas por essa figura grotesca chamada de Mito, elevada à Presidência a partir de um golpe cheio de mentiras. Quem sabe, o monte de fezes que vai sendo construído diariamente pelo governo possa contribuir para limpar a enorme sujeira na qual o Brasil está mergulhado?

Não deixa de ser uma esperança, quando é observado parte do empresariado, das Forças Armadas e do Judiciário firmemente empenhada em manter o status quo, determinado por poderosas forças externas aos interesses nacionais, ao mesmo tempo em que os partidos políticos, inclusive os de esquerda, se debatem em ações meramente eleitoreiras. Essa pressão somente será contida pela vontade do conjunto de pessoas, como o homem do café, que, inconformadas com a onda de violência e de retrocesso político, econômico e socioambiental que tomou conta do país, voltem às ruas e recoloquem as coisas no lugar.  

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